Existe uma certa ironia em ver o Tubi — um serviço gratuito sustentado por anúncios, que a maioria dos fãs de streaming nem menciona nas listas de assinaturas — fazer o que a Warner, a Paramount e a própria Cartoon Network não conseguiram: guardar o legado de suas próprias animações.
Em 2026, o Tubi consolidou uma estratégia que vem construindo há meses: trazer de volta séries icônicas do Cartoon Network, da Nickelodeon e de outras redes que definiram o gosto de uma geração. Na lista mais recente, estão As Meninas Superpoderosas, Laboratório de Dexter e outras produções que passaram anos sumidas da grade de qualquer plataforma relevante.
A resposta curta: as fusões corporativas aconteceram. A Warner Bros. Discovery engoliu a WarnerMedia, que tinha engolido a Turner, que controlava o Cartoon Network. Nesse processo digestivo de bilhões de dólares, títulos inteiros desapareceram de plataformas digitais — ou ficaram presos em licenciamentos confusos, ou foram simplesmente descartados do catálogo ativo para cortar custos.
O Max, serviço oficial da Warner, priorizou os grandes IPs. O que não gerava clique suficiente ficou no limbo. Resultado: uma geração de adultos que cresceu com esses desenhos não tinha onde rever — legalmente — os episódios que moldaram seu senso de humor, sua estética, sua referência cultural.
O Tubi não gasta bilhões em produções originais. Não tem franquia de super-heróis, não tem Oscar bait, não tem showrunner famoso no Instagram. O que ele tem é um modelo simples: licencia conteúdo de estúdios que preferem monetizar o arquivo a deixá-lo apodrecendo em servidor.
Para o estúdio, é receita passiva. Para o Tubi, é catálogo que atrai usuários sem o custo de produção. Para o espectador, é acesso gratuito — com propaganda, mas gratuito — a séries que custam zero para descobrir.
É um modelo sem glamour que funciona melhor do que deveria.
Não é só saudosismo. O resgate dessas séries tem valor cultural concreto. Laboratório de Dexter, por exemplo, é um marco na animação americana dos anos 90 — roteiros afiados, timing cômico preciso, influência visível em tudo que veio depois. As Meninas Superpoderosas estabeleceu uma linguagem visual e um estilo de ação que a própria Cartoon Network tentou replicar por anos.
Essas obras foram feitas por times que priorizavam história e personagem. O resultado envelheceu bem — diferente de algumas produções mais recentes que priorizaram outras coisas e já chegaram vencidas.
O fato de o Tubi estar resgatando esse material enquanto os grandes estúdios debatem qual IP rebotar com novo roteirista de diversidade diz algo sobre onde está a inteligência de mercado agora.
A estratégia do Tubi para 2026 parece clara: construir o maior arquivo possível de animação americana clássica em um único lugar acessível. Se a tendência continuar, o serviço pode se tornar a referência para quem quer acessar a história da animação ocidental sem pagar por cinco assinaturas diferentes.
Para os fãs, é uma boa notícia. Para as grandes plataformas, deveria ser um sinal de alerta. Quando um serviço de segundo escalão começa a ganhar audiência por fazer o básico — guardar bem o que já foi feito — é porque alguém no topo esqueceu que o passado também tem valor.
O Tubi lembrou. Enquanto isso, a conta de streaming dos outros continua subindo.