Michael: o biopic que a crítica tentou enterrar e não conseguiu

Na terceira semana em cartaz, o filme ganhou mais salas IMAX. Enquanto isso, o episódio dos Simpsons com Jackson segue banido das prateleiras.

Na terceira semana em cartaz, o biopic Michael ampliou sua ocupação de salas IMAX nos Estados Unidos. O Mortal Kombat 2 perdeu espaço. Na China, as sessões foram prorrogadas. Para um filme que boa parte da imprensa especializada tentou sepultar antes da estreia, o resultado é, no mínimo, constrangedor para os críticos.

A campanha contra o filme foi extensa. Artigos do Wall Street Journal chegaram ao ponto de tentar associar Michael Jackson a Jeffrey Epstein, uma jogada que diz mais sobre o estado da crítica cultural do que sobre o filme em si. Não funcionou. O público foi, gostou, voltou e recomendou.

A única posição que restou à crítica foi reconhecer o óbvio: Michael é um sucesso de bilheteria. A narrativa alternativa não sobreviveu à terceira semana.

O efeito colateral

Com o biopic em alta, as músicas de Jackson dispararam nas plataformas. A maior parte do catálogo está acessível. Mas há exceções, e a mais emblemática é um episódio de Os Simpsons.

“Stark Raving Dad”, primeiro episódio da terceira temporada, exibido originalmente em setembro de 1991, não existe mais no streaming. Não existe nas coleções físicas recentes de Blu-ray. Se você pegar um box set onde o episódio deveria estar, há boa chance de o disco estar em branco naquele slot.

Outros episódios polêmicos dos Simpsons foram retirados das plataformas mas permanecem em mídia física. Este não. “Stark Raving Dad” desapareceu de ambas. As cópias antigas, das edições originais em DVD da Fox, existem, mas ficam cada vez mais raras e caras, e o sucesso do biopic vai acelerar essa valorização.

O episódio

A premissa: Homer Simpson é internado num hospital psiquiátrico e conhece Leon Kompowsky, um homem branco, gordo e careca que acredita ser o Rei do Pop. A voz era, de fato, a de Michael Jackson, não creditado na época. Ele usou o pseudônimo John Jay Smith porque queria manter o mistério: era fã declarado da série.

Jackson chegou a co-escrever “Do the Bartman” para a produção porque achava que Bart Simpson merecia um hit de verdade. O ponto alto do episódio é a canção de aniversário que Leon e Bart compõem para Lisa, que acreditava ter sido esquecida pela família. Para o que era uma série de animação adulta nos anos 90, é um momento de rara delicadeza.

Al Jean, co-roteirista do episódio e hoje showrunner da série, foi o principal defensor do banimento. Sua justificativa foi que o episódio teria servido como instrumento de abuso. Uma análise honesta do conteúdo não sustenta a acusação. Não há nada de sexualmente ambíguo na história. É um episódio sobre um pai excêntrico e um irmão que salva o aniversário da irmã.

O co-roteirista Mike Reiss demonstrou publicamente mais afeto pelo trabalho. A posição de Jean não é unânime entre quem fez o episódio. Mas Jean tem o poder de decisão, e o episódio sumiu.

O padrão

Jackson também contribuiu anonimamente para a trilha sonora de Sonic the Hedgehog 3, no Mega Drive, em 1994. Questões de direitos ligadas a essa parceria explicam por que o jogo não foi relançado em sua forma original desde a coleção do PlayStation 3. Mais um pedaço de história cultural em suspensão indefinida.

O biopic sobreviveu aos críticos porque o público pôde escolher. O episódio dos Simpsons não sobreviveu porque a decisão foi tomada antes que o público pudesse reagir. A diferença entre os dois casos é uma janela para entender como a censura cultural funciona quando é discreta: às vezes o público rejeita o julgamento, às vezes nem sabe que foi julgado por ele.

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