Existe uma maldição silenciosa que acompanha todo grande shonen: quanto mais alto você sobe, mais dolorosa é a queda. My Hero Academia prometeu uma geração inteira de heróis e entregou um final que pareceu administrado por comitê. Jujutsu Kaisen trouxe a sensação de que o mangaká estava destruindo a própria obra a cada capítulo. Chainsaw Man, ao seu modo caótico, ainda busca um destino coerente com tudo que prometeu. O padrão é claro — e é exatamente por isso que o caso de One Piece merece atenção diferente.
Terminar uma obra longa é um dos trabalhos mais difíceis do entretenimento. Não importa a mídia — série de TV, trilogia de filmes, saga de quadrinhos. O leitor investe anos, constrói afeto, projeta expectativas. Quando o desfecho decepciona, a ferida é proporcional ao investimento.
O shonen tem uma vulnerabilidade específica: ele cresce por popularidade. O mangaká estica o que funciona, descarta o que não repercute na pesquisa semanal, improvisa mais do que planeja. O resultado é uma estrutura narrativa que parece um trem ganhando velocidade sem saber ao certo onde fica a estação final.
Kohei Horikoshi admitiu publicamente a exaustão com My Hero Academia. Gege Akutami parece ter uma relação deliberadamente destrutiva com os personagens de Jujutsu Kaisen — o que pode ser arte ou pode ser descaso, dependendo de como você lê. Fujimoto, em Chainsaw Man, opera em um register tão propositalmente fragmentado que qualquer coisa pode ser chamada de intenção depois do fato.
Eiichiro Oda tem 27 anos de One Piece nas costas. Nesse tempo, cometeu erros, teve arcos irregulares, enfrentou hiatos por saúde. Mas fez uma coisa que poucos mangakás de shonen fazem de verdade: planejou o fim antes de começar.
A estrutura de One Piece não é um trem sem destino — é uma rede. O Século Vazio, as Armas Antigas, o Fruto do Sol, a Vontade do D., Laugh Tale. Cada fio solto tem, ao que tudo indica, uma ponta no outro lado. Oda mencionou em entrevistas ao longo dos anos que conhece o destino da história desde o início. O comportamento narrativo da obra confirma essa afirmação: revelações antigas ganham novo peso quando revisitadas.
O arco final, que se desenrola agora em Egghead e avança em direção a Elbaf e ao confronto com o Governo Mundial, tem a densidade de quem está juntando peças espalhadas há décadas — não inventando peças novas para tapar buracos.
Cuidado com a euforia prematura. One Piece ainda não acabou, e a execução do capítulo final valerá mais do que toda a construção que o precedeu. A história da ficção está cheia de obras que passaram 90% do tempo construindo e usaram os últimos 10% para demolir tudo — Game of Thrones sendo o exemplo mais doloroso da última década.
Há perguntas legítimas sobre se Oda conseguirá resolver cada thread narrativo com a elegância que a obra merece. Há personagens secundários que merecem mais do que um painel de despedida. Há teorias de décadas que, se confirmadas, serão catárticas — e se frustradas, serão devastadoras.
Mas a diferença entre One Piece e a maioria dos seus contemporâneos não é que ele vai acertar. É que ele demonstrou, ao longo de toda sua construção, que sabe para onde está indo. E no mundo do shonen, isso já é uma raridade que vale ser reconhecida antes da linha de chegada.
Existe algo singular em acompanhar uma obra que pode — pode — ser o exemplo definitivo de como se conta uma história longa em mangá. One Piece tem seus defeitos, tem seus arcos menores, tem momentos em que a promessa parece maior do que a entrega.
Mas quando o Elbaf finalmente abrir suas portas, quando o Século Vazio revelar o que o Governo Mundial passou 800 anos escondendo, quando Luffy estender a mão pela última vez — quem estiver lá para ver vai entender por que alguns leitores passaram um quarto de século esperando.
Se Oda entregar, não será só um bom final de mangá. Será a prova de que o formato pode sustentar uma narrativa à altura de sua ambição. E isso, no cenário atual, onde cada grande shonen parece tropeçar na própria grandeza, seria uma vitória mais importante do que qualquer chapéu de palha.