Temos jogos incríveis de super-heróis. Batman Arkham Knight. Marvel’s Spider-Man. Até Guardians of the Galaxy acabou sendo ótimo. A indústria claramente aprendeu a fazer um bom jogo de super-herói. Exceto por um detalhe: o super-herói mais icônico de todos os tempos nunca teve um jogo bom. Nenhum. Zero.
O Superman — o original, o modelo de tudo que viria depois — continua sem um jogo à sua altura. E a explicação mais comum é que ele é poderoso demais. Mas essa resposta é preguiçosa, e tem pelo menos um jogo que prova que ela está errada.
Sim, o Superman é praticamente invencível. Voa mais rápido que o som, tem visão de raio-laser, sopro congelante, força sobre-humana — e de alguma forma ainda usa a cueca por cima da roupa sem que ninguém bote defeito. Para um jogo, isso apresenta um problema real: como criar tensão quando o jogador não pode morrer?
Em 2006, a EA resolveu isso com uma ideia brilhante no jogo Superman Returns: em vez de dar uma barra de vida ao Superman, eles deram uma barra de vida à cidade. Metrópolis era o personagem em risco, não o Homem de Aço. Faz todo sentido, porque as melhores histórias do Superman nunca são sobre ele se machucar — são sobre ele não conseguir salvar todo mundo. Ele é um ser onipotente cercado de pessoas frágeis que ele ama, e qualquer uma delas pode ser morta por algo que seria equivalente a um corte de papel para ele.
A ideia era boa. O jogo em si não era. Metacritic em torno de 54. O voo era impressionante para 2006, Metrópolis tinha escala, mas o jogo como um todo não funcionou.
O problema é que Superman Returns não foi um caso isolado. Foi mais um na lista. Superman: The Man of Steel (2002, exclusivo de Xbox) tem 44% no Metacritic. Superman: Shadow of Apokolips (PS2 e GameCube, 2002) chegou a 64% — provavelmente ajudado pelo elenco de voz completo da série animada. E então tem o elefante na sala: Superman 64 (Nintendo 64, 1999), amplamente considerado um dos piores jogos já feitos, com fases que são literalmente impossíveis de vencer sem trapaça por falhas de design.
Depois de Superman Returns, em 2006, a Warner Brothers simplesmente parou. Nenhum jogo principal do Superman desde então. São quase 20 anos de ausência. Nem títulos descartáveis para mobile. Nada.
Aqui é onde a análise fica interessante. O argumento de que Superman é impossível de transformar em jogo já foi refutado — por projetos independentes, por mods, por demos técnicas. Então por que a Warner Brothers não faz?
A resposta mais honesta é que eles levaram uma surra tão consistente com cada tentativa que simplesmente trancaram a porta e jogaram a chave fora.
Para entender a mentalidade da Warner Brothers com propriedades DC, basta olhar o que aconteceu com a Monolith Productions. O estúdio foi colocado para desenvolver um jogo da Mulher-Maravilha com o Nemesis Engine — o mesmo sistema de Shadow of Mordor e Shadow of War, que seria extraordinário num jogo dela. Mas aí veio Wonder Woman 1984. Fracasso. E a resposta da Warner Brothers não foi tentar entender o que deu errado e corrigir. Foi encerrar a Mulher-Maravilha como franquia — e fechar a Monolith junto, aparentemente porque o único motivo para o estúdio existir, nos olhos da empresa, era esse jogo cancelado.
É assim que a Warner Brothers trata fracassos: corta tudo e finge que nunca existiu.
Existem jogos que capturam a essência do Superman sem serem jogos do Superman:
O problema do Superman num jogo não é mecânico. É político dentro da Warner Brothers. Cada vez que alguém menciona um jogo do Superman internamente, a reação provável é de quem quer sumir da sala. Se lançassem um jogo ruim hoje, não só seria destruído pela crítica — cada review conteria uma referência ao Superman 64. A reputação de que jogos do Superman são impossíveis está gravada na consciência coletiva do público.
Mas isso não é verdade. O developer que fez Undefeated provou que é possível. O mod do Unreal Engine provou. Megaton Rainfall provou. Lego Batman 2 provou.
O Superman pode ser super num videogame. A pergunta é se a Warner Brothers vai superar a vergonha de ter tentado antes — e talvez precise de um empurrão do público para finalmente fazer acontecer.