Me responda uma coisa: o que acontece quando uma série inteira é construída sobre a premissa de que quebrar tabus é sinônimo de arte — e os tabus acabam?
Euphoria S3 estreia hoje. 22h, HBO Max. E se você acompanhou qualquer coisa sobre essa temporada nas últimas semanas, já sabe: a notícia não é boa.
No Rotten Tomatoes, a aprovação da crítica orbita entre 43% e 56% — a pior da série. Críticos americanos não estão medindo palavras. O New York Post foi cirúrgico ao apontar que a escrita sacrifica profundidade em nome do absurdo. Outros foram menos diplomáticos. E pela primeira vez, até a imprensa que passou cinco anos genuflectindo diante de Sam Levinson está admitindo o óbvio.
Olha só: não é que Euphoria ficou ruim. É que Euphoria sempre foi isso — só que agora não tem mais a juventude do elenco para disfarçar.
A série abandonou o colegial. Cinco anos depois, Rue é mula de droga cruzando a fronteira mexicana com cocaína na barriga. Nate é construtor falido planejando casamento que não pode pagar. Cassie é criadora de conteúdo erótico no OnlyFans. E Levinson apresenta tudo isso com a solenidade de quem acredita estar fazendo Scorsese — quando está fazendo softcore com filtro de Instagram.
Aqui a coisa fica realmente interessante.
Porque o fracasso de Euphoria não é acidental. É o resultado lógico de uma cultura que passou uma década inteira aplaudindo “representatividade” e “transgressão” como se fossem sinônimos de qualidade narrativa. Levinson recebeu prêmios, capas de revista e aplausos ensurdecedores não porque escrevia bem — mas porque chocava bem. Adolescentes usando drogas, nudez explícita, sexualidade como espetáculo. A crítica progressista chamou de “retrato cru da Geração Z”. Era, na verdade, exploitation com direção de fotografia bonita.
E ninguém podia dizer isso em voz alta. Porque criticar Euphoria era criticar a “representação”. Era ser retrógrado. Era não entender que aquela estética hipersexualizada de menores de idade em situações extremas era, na verdade, empoderamento.
Pois é. A conta chegou.
Conecte os pontos: o elenco inteiro cresceu demais para o material. Zendaya lançou “O Drama” com 77% no Rotten Tomatoes. Elordi fez Frankenstein e Heathcliff — papéis que exigem algo que Levinson nunca pediu dele: sutileza. Sweeney é estrela de cinema. Os três provaram que sabem atuar quando o diretor tem algo real para dizer. E quando voltam para Euphoria, o contraste é brutal. É como ver três atletas olímpicos sendo escalados para uma pelada de várzea.
Zendaya já admitiu que acredita ser a última temporada. Nos Stories dela, Euphoria aparece em último lugar — atrás de Homem-Aranha, atrás de Duna, atrás de qualquer coisa que ela realmente respeite. A série que construiu sua carreira virou constrangimento profissional. E ela não consegue sequer fingir que não é.
Está vendo o padrão?
O problema de Levinson não é talento visual. O homem sabe compor quadro. Sabe criar atmosfera. A nova trilha “neo-Western” com efeitos de chicote é stylish. Rue pilotando pelo deserto com tumbleweeds reais é cinematograficamente competente.
O problema é que Levinson nunca teve nada para dizer. Ele tinha coisas para mostrar. E existe uma diferença abissal entre as duas coisas. Kubrick mostrava E dizia. Scorsese mostra E diz. Levinson mostra — e espera que o choque faça o trabalho do roteiro.
Euphoria S1 e S2 funcionavam por um motivo simples: o contraste. Havia o colegial — aquele universo simultaneamente esperançoso e devastador da adolescência — como âncora. Os personagens eram perdidos, mas tinham um mundo ao redor. Pais. Amigos. Estrutura contra a qual se rebelar. A rebeldia tinha contexto. O sofrimento tinha moldura.
Agora? É só perdição. Cada personagem em seu inferno privado, sem conexão com os outros, sem arco, sem crescimento. Cassie não tem jornada — tem OnlyFans. Rue não tem redenção — tem tráfico internacional. Nate não tem transformação — tem dívida. São situações extremas empilhadas sem propósito narrativo, como se Levinson acreditasse que desespero é automaticamente profundo.
Não é. Desespero sem estrutura é melodrama. Melodrama sem autoconsciência é exploitation. E exploitation com orçamento da HBO é Euphoria.
E aqui está a parte que ninguém na crítica mainstream vai dizer: Euphoria é o produto perfeito de uma indústria que substituiu mérito artístico por checklist ideológico. Que durante cinco anos chamou de “corajoso” o que era apenas gratuito. Que confundiu chocar a classe média com contar verdades. Que aplaudiu a sexualização de personagens adolescentes porque vinha embalada no vocabulário certo — “body positivity”, “sex positivity”, “authentic representation”.
A ironia é deliciosa: a série que foi elogiada por “representar” a juventude termina representando exatamente o que há de pior no entretenimento contemporâneo. Não o conservadorismo que Hollywood tanto teme. Mas o niilismo vazio que Hollywood tanto premia.
Levinson não sabe escrever gente real. Sabe escrever estética sobre gente em colapso. E quando a estética envelhece — e ela sempre envelhece — sobra o quê? Personagens rasos, arcos inexistentes, e uma câmera desesperada para encontrar o próximo choque que justifique sua existência.
Euphoria não é uma temporada ruim. É um epitáfio. Da série, de uma era da TV, e de uma filosofia cultural inteira que acreditou que transgressão era identidade, que provocação era profundidade, e que bastava quebrar regras para ser relevante.
Não tem filtro bonito que esconda o vazio.