Existe uma arte peculiar em Hollywood de encontrar exatamente a pessoa errada para o trabalho. O estúdio que quer fazer um filme sobre cultura hacker contrata um diretor que não sabe o que é um terminal. O produtor que toca uma franquia de games nunca jogou nada na vida. E agora temos Peter Berg, escolhido para dirigir o filme de Call of Duty — o mesmo Peter Berg que, há cerca de uma década, declarou que jogar videogame é coisa de gente “fraca e patética”.
A informação foi levantada pelo Kotaku e é exatamente o tipo de detalhe que parece piada, mas não é. Berg — diretor de filmes como Lone Survivor, Deepwater Horizon e Friday Night Lights — tem currículo sólido em thrillers de ação masculina, tensão militar e dramas baseados em fatos reais. No papel, faz sentido para uma adaptação de CoD. No histórico de declarações públicas, a coisa fica mais complicada.
Não é que Berg não tenha o direito de achar videogame uma perda de tempo. O problema é diferente: existe um padrão consistente em Hollywood de contratar para adaptações de games pessoas que, no mínimo, não têm respeito genuíno pelo material de origem.
E isso importa. Porque esse desprezo pelo público-alvo frequentemente aparece no produto final. Aparece quando o roteiro trata os elementos do game como enfeite e não como substância. Aparece quando a direção força uma linguagem “cinematográfica séria” onde o público queria tensão tática. Aparece quando o filme que sai parece um blockbuster genérico com a skin do IP colada por cima.
Call of Duty tem uma estética muito específica — o realismo tático, a câmera no ombro, a intensidade de combate em espaços fechados. Berg, ao menos em tese, poderia chegar perto. Mas a pergunta que o comentário do passado levanta é: ele vai fazer isso por respeito ao jogo, ou vai fazer um filme de guerra e colar o nome CoD no título?
A franquia Call of Duty é um dos IPs mais rentáveis da história do entretenimento. Bilhões em faturamento anual, dezenas de títulos, uma base de fãs que atravessa gerações. E esse público não é burro — ele percebe quando é tratado como mero consumidor de nostalgia a ser explorado.
O mercado de adaptações de games evoluiu. The Last of Us demonstrou que é possível respeitar o material e fazer televisão de qualidade. Fallout acertou o tom sem ignorar o que tornava o jogo especial. A desculpa de que “games não adaptam bem” foi aposentada. Então quando chega a notícia de que o diretor escolhido para um dos maiores filmes baseados em game já chamou a base de fãs desse game de “fracos e patéticos”, a reação razoável não é raiva — é ceticismo qualificado.
Para ser justo: pessoas mudam de opinião. Uma declaração de uma década atrás não define necessariamente o trabalho de amanhã. Berg tem habilidade técnica comprovada e experiência com ação de alta intensidade. Se ele se debruçar sobre o material e entregar algo à altura, ótimo.
Mas a história das adaptações está cheia de diretores que foram “a escolha certa no papel” e entregaram algo que tratava o público original como audiência secundária. O público de CoD vai assistir. A pergunta é se vai assistir para ver seu jogo nas telas, ou para ver mais um blockbuster esquecível com visual familiar.
A ironia de contratar um homem que desprezava gamers para dirigir um dos maiores filmes do universo gamer não passou despercebida. Hollywood, como sempre, tem um talento especial para esse tipo de escolha.