Existe um tipo específico de coragem em Hollywood: a coragem de dizer exatamente o que todos ao seu redor já pensam.
Mark Ruffalo domina essa arte. Décadas de posts no X, discursos em premiações, cartas abertas assinadas junto a outros quatrocentos nomes — tudo com o semblante de quem está prestes a ser queimado por se atrever a falar. O problema é que Ruffalo nunca paga preço nenhum por nenhuma de suas posições. Porque as posições dele nunca saem do perímetro do que Hollywood inteira já concorda.
Quando declarou que “o ativismo vem antes das normas de Hollywood”, foi aplaudido pelas normas de Hollywood. Quando assinou cartas contra fusões corporativas, estava alinhado com o WGA e a maioria dos A-listers. Quando defendeu mais representatividade, tinha uma fila de colegas dizendo o mesmo à sua esquerda.
A questão não é se as causas dele são corretas. É o abismo entre a narrativa e a realidade.
Ruffalo se posiciona como quem “fala verdades ao poder”. Mas o poder concorda com ele: os estúdios, as agências, os festivais, a imprensa especializada. Quando todos que assinam seu cheque compartilham das mesmas opiniões, declarar essas opiniões em público não é coragem. É manutenção de emprego com aparência de princípio.
O caso mais revelador foi a campanha contra a fusão Paramount-Warner Brothers. Ruffalo posou como o homem que ousou enfrentar as corporações. Na prática, estava do lado do WGA, tinha 4.000 colegas assinando a mesma carta e atacava o único dissidente visível: James Cameron, que expressou opinião favorável à Netflix. Isso foi enquadrado como ato de coragem. Seria cômico se não fosse tão normalizado.
Há algo mais preocupante aqui do que a hipocrisia individual.
Hollywood passou décadas construindo um ambiente onde discordância gera consequência real. O caso de Gina Carano é o exemplo público mais evidente: demitida, processada e eventualmente indenizada por posições políticas. Os exemplos privados se contam às centenas. O próprio Ruffalo mencionou, sem perceber a ironia, que muitos colegas apoiavam sua petição “mas tinham medo de retaliação”. Sem reconhecer que ele é exatamente o tipo de pessoa de quem esses profissionais têm medo.
Quando se remove sistematicamente quem discorda, remove-se também quem questiona, quem arrisca o incomum, quem está disposto a errar tentando algo diferente. O que sobra são pessoas que sabem exatamente qual narrativa não vai gerar problema interno. E produzem exatamente isso.
Alec Guinness, em outro tempo, disse a Ian McKellen que era inadequado para um ator se envolver em política. Não porque a política fosse errada, mas porque o ofício demanda certa separação para funcionar bem. Esse conselho foi ignorado. A geração seguinte ignorou quem ignorou. E aqui estamos.
O resultado está na tela e nas bilheterias.
Hollywood perde público enquanto criadores independentes constroem audiências de milhões com câmera de celular. Estúdios gastam bilhões em franquias que não convencem ninguém. Roteiristas publicam artigos de opinião dizendo “ainda há esperança”, o que já é um sinal ruim por si só.
A criatividade de qualquer indústria depende de uma parcela de pessoas dispostas a ignorar o consenso e tentar coisas que podem fracassar espetacularmente. Hollywood purgou essas pessoas. Ficou com os que seguem o protocolo, defendem o que está estabelecido e chamam isso de progressismo.
Mark Ruffalo tem razão sobre uma coisa: há um clima de medo em Hollywood. Só que ele confunde quem cria esse clima com quem sofre com ele.