PC Gamer disse o que os outros não quiseram: Mixtape não é um jogo

Enquanto IGN e Kotaku distribuíam 10/10, a PC Gamer avaliou o produto real: um filme de 3 horas com botões opcionais

O 74 da PC Gamer disse mais sobre o estado da mídia de games do que qualquer 10/10 distribuído na semana passada.

Mixtape chegou ao mercado com o peso de uma obra aclamada. IGN deu 10. Polygon, 10. Kotaku, 10. O consenso da grande imprensa especializada foi quase unânime: jogo do ano, experiência imperdível, obra que define uma geração. A PC Gamer discordou — educadamente, por escrito, com argumentos.

O que é Mixtape

Três horas de runtime. História de amadurecimento nos anos 90, centrada em Stacey e um trio de personagens. Visualmente bonito, escrito com cuidado, trilha sonora que claramente sustenta boa parte do apelo emocional. Sem combate. Sem sprint. Sem puzzles. Sem quick-time events que importem. E, detalhe que o crítico da PC Gamer registrou: os prompts de botão são opcionais. O jogo continua mesmo que você não pressione nada.

Isso não é design experimental. É uma animação com pausas para confirmação de presença — a versão paga daquela notificação que o Netflix exibe após dois episódios: Você ainda está assistindo?

Dois momentos em três horas

O crítico da PC Gamer identificou exatamente dois momentos no jogo inteiro em que a interatividade fez diferença real para a narrativa. Dois. Uma cena de beijo que captura o constrangimento biológico de uma experiência adolescente. E um momento no desfecho, quando a protagonista começa um novo capítulo. Todo o resto? Conteúdo passivo interrompido por mini-games rudimentares e seções de caminhada.

O mini-game de softball serve para estabelecer que a personagem Cass é boa num esporte que ela nem gosta — batida de caracterização importante. Só que se o jogador falha repetidamente, a cena desmorona. A mecânica destrói o próprio momento que deveria reforçar. As sequências de voo, vendidas como símbolo de liberdade adolescente, estão em trilhos. Literalmente. “Não é assim que a liberdade funciona”, escreveu o crítico — e dificilmente alguém poderia formular melhor.

O que o 74 revela

A PC Gamer foi direta: Mixtape é “um projeto de paixão absolutamente lindo”. Escrito com qualidade, emocionalmente eficaz nos melhores momentos. A crítica não é ao que o jogo é. É ao que o jogo finge ser.

“Uma história de amadurecimento linda, interrompida por mini-games e seções de caminhada” — essa é a descrição da PC Gamer para um produto que o restante da mídia tratou como obra-prima do medium. A distância entre essas duas avaliações não tem explicação técnica simples. Ou os outros críticos jogaram algo diferente, ou estavam avaliando critérios diferentes.

Quem comprou Mixtape esperando um videogame levou para casa um filme que pede para você apertar botões de vez em quando para avançar. A PC Gamer disse isso. Deu 74. O resto do mercado preferiu o consenso.

Às vezes, o único jornalista que faz o trabalho é aquele que não recebeu o memorando.

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