Bilheteria Despenca, Hollywood Encontra o Culpado: Você

Will Ferrell, John Leguizamo e Kathy Griffin explicam por que o problema das bilheterias americanas é sempre o público — nunca eles

Quando um filme fracassa nas bilheterias, o roteiro costuma seguir uma lógica previsível: estúdio nega, distribuidora culpa a pirataria, e a estrela some das entrevistas. Em 2026, Hollywood inventou uma variação: culpar o público diretamente. Com argumentos elaborados.

Will Ferrell abriu o baile. Segundo o ator, a crise nas bilheterias americanas tem explicação simples: “votantes estúpidos que votam em presidentes estúpidos ganham prêmios estúpidos.” Logo em seguida, completou a análise econômica atribuindo o mau desempenho ao “Trumpismo e essa economia lixo causada pelos eleitores de Donald Trump”. Para Ferrell, o fraco desempenho dos últimos anos não tem relação com qualidade ou preço dos ingressos. É culpa política, ponto.

John Leguizamo foi na mesma direção. Na versão dele, os boicotes são movidos a mentiras plantadas por apoiadores de Trump, e o público desinformado simplesmente segue o rebanho. “DEI é evolução, não devolução”, declarou, com a confiança de quem nunca precisou convencer ninguém a pagar o equivalente a R$ 80 numa pipoca de cinema.

A Teoria de Kathy Griffin

Kathy Griffin completou o trio com a declaração mais criativa das três. Segundo ela, o problema é que mulheres são mais importantes do que homens na indústria e os homens não aguentam. Quando percebeu que isso não explicava o afastamento do próprio público feminino, Griffin encontrou solução: as mulheres foram “radicalizadas” pelo MAGA. Portanto, mesmo as mulheres que pararam de ir ao cinema estão erradas.

Num movimento raro, ela conseguiu culpar simultaneamente dezenas de milhões de homens misóginos e metade da base feminina americana pela queda de bilheteria de filmes que considera excelentes.

O Que Está Acontecendo de Verdade

A realidade é menos épica e mais irritante para quem prefere narrativas simples.

Levar uma família de quatro pessoas ao cinema nos Estados Unidos em 2026 custa entre 60 e 100 dólares, sem contar pipoca, refrigerante e estacionamento. Com streaming disponível em casa e games cada vez mais imersivos, o cinema precisa entregar algo que justifique esse investimento. Uma parcela crescente do público decidiu que vários filmes recentes não justificam.

A isso se soma uma perda de confiança acumulada. Estúdios passaram anos priorizando checklists de representatividade acima de roteiros bem construídos. Quando o público percebeu o padrão, parte dele simplesmente parou de dar crédito automático a franquias que antes frequentava. A reversão desse processo não acontece da noite para o dia, mesmo que os estúdios comecem a corrigir o rumo agora.

Brendan Fraser aparece como contraponto interessante nesse cenário. Um ator que trata fãs com respeito genuíno, que saiu e voltou sem carregar ressentimento de quem o assistiu, com Múmia 4 previsto para 2027 pela Universal. Se o filme for bom, as pessoas vão. Esse mecanismo não quebrou.

O Custo de Culpar a Plateia

Há uma ironia estrutural no argumento de Ferrell, Leguizamo e Griffin. Os três estão convencidos de que o problema está no receptor, nunca no emissor. Mas as bilheterias são implacavelmente democráticas: não importa quanto uma estrela ache que seu filme é importante, o ingresso só é comprado quando o espectador quer ver.

Chamar seus potenciais clientes de estúpidos, misóginos e radicalizados é uma estratégia de negócios que merece estudo, como modelo do que não fazer.

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