Existe uma definição clássica de Helena de Troia: a mulher mais bela do mundo antigo, cujo rosto lançou mil navios. Christopher Nolan, de acordo com os vazamentos mais recentes, decidiu que esse rosto tem sotaque queniano.
Lupita Nyong’o aparece como favorita para o papel na adaptação da Odisseia de Homero que Nolan está filmando. Não é confirmação oficial, mas fontes próximas à produção falam com convicção suficiente para colocar o assunto em pauta. Junto vem o rumor ainda mais divisivo: Elliot Page como o fantasma de Aquiles.
Helena é o papel com a exigência mais óbvia da mitologia grega. A narrativa inteira depende de que a beleza dela seja uma força da natureza, algo tão devastador que justifica dez anos de guerra. Não é frescura de fã: é o motor dramático da história.
Lupita Nyong’o é uma atriz de verdade. Mas colocá-la como Helena vai além da escolha estética. É a declaração de que a fidelidade cultural não faz parte do projeto. Quando a resposta para “por que ela?” é “por que não?”, a resposta implícita é que o personagem não tem identidade que valha preservar.
Há uma ironia que a internet não perdeu: Jon Bernthal como Menelau, o marido traído de Helena, gera zero discussão. Boa escolha, ponto final. É quando o casting parece calibrado para mensagem que a resistência aparece.
Se Helena já gera atrito, o rumor de Elliot Page como o fantasma de Aquiles levanta uma questão diferente. Na Odisseia, a cena no Hades é sobre masculinidade e o preço da glória: Aquiles preferiria ter vivido como o mais humilde dos homens a reinar sobre os mortos. É uma cena que funciona porque Aquiles é o paradigma do guerreiro grego.
Colocar Elliot Page ali não resolve nada dramático. Só adiciona uma camada que a cena não pediu. A Odisseia sobreviveu três mil anos porque fala de lealdade, identidade e retorno, temas que não precisam de atualização ideológica para funcionar. Usar o épico como moldura para a pauta do momento é consumi-lo, não honrá-lo.
Há um detalhe que passou despercebido: Nolan citou publicamente a tradução de Emily Wilson, de 2017, a primeira tradução do poema ao inglês feita por uma mulher e com declarada influência feminista. Wilson é classicista séria, mas a tradução gerou debate acadêmico considerável por certas escolhas interpretativas.
Nolan não andava pelo set com o livro dela na mão. Mas a referência diz alguma coisa sobre como ele leu o material.
O problema de criticar Nolan é que ele não é um diretor mediano executando agenda alheia. É o único cineasta vivo capaz de encher cinema só com o nome. Oppenheimer ganhou o Oscar de Melhor Filme. Tenet lucrou com pandemia em andamento. A Odisseia vai abrir enorme independente de qualquer controvérsia de elenco.
Isso torna as escolhas mais frustrantes. Nolan tem poder suficiente para fazer o que quiser. Não precisa de aprovação de ninguém. E mesmo assim os rumores apontam para as mesmas decisões que o público cansou de ver.
Pode ser que o filme surpreenda. Nolan já surpreendeu antes. Mas quando a conversa sobre a Odisseia vira conversa sobre casting antes de qualquer trailer completo, alguma coisa saiu do rumo.
A Odisseia é sobre um homem que luta durante anos para encontrar o caminho de volta para casa. O irônico é que parece ser Hollywood que está perdida.