Como a Paramount destruiu Star Trek em 9 anos

Da era Discovery ao cancelamento de Starfleet Academy: o dossiê de uma franquia de 60 anos destruída por capricho e incompetência corporativa

Os sets foram demolidos. Os adereços do Discovery estão sendo leiloados para quem fizer a melhor oferta. A Paramount não tem nada em produção e não há planos concretos para mudar isso. Depois de 60 anos, Star Trek morreu, e a história de como isso aconteceu é um manual de destruição corporativa por capricho e incompetência.

O que Roddenberry construiu

Gene Roddenberry era um veterano de guerra texano que sobreviveu a dois acidentes aéreos, virou policial em Los Angeles e criou uma série sobre o melhor que a humanidade poderia ser. Star Trek não nasceu de um roteirista sentado num café falando sobre sentimentos. Nasceu de um homem que havia visto o pior da humanidade e decidiu mostrar o oposto.

A série original fez televisão revolucionária enquanto fingia ser entretenimento popular. Uma mulher negra na ponte de uma nave em 1966. Um beijo inter-racial na TV aberta americana. Roddenberry não deu palestras. Ele mostrou.

Mas Roddenberry nunca teve controle real sobre o que criou. A Paramount se recusou a vender os direitos de volta para ele por US$ 150 mil depois do cancelamento. A partir daí, ele sempre dependeria de quem pagava as contas.

O padrão que se repete

Rick Berman assumiu após a morte de Roddenberry em 1991. Teve acertos genuínos: Deep Space 9 foi um marco da televisão serializada, e The Next Generation se tornou a primeira série em sindicalização indicada ao Emmy de melhor drama. E erros graves: saturação de conteúdo nos anos 1990 e, no fim, Nemesis, dirigido por um homem que nunca havia assistido à franquia antes de ser contratado. O filme perdeu para uma comédia romântica de Jennifer Lopez no fim de semana de estreia.

A Paramount encostou Berman. A franquia ficou quatro anos sem nova produção. Nesse silêncio, as séries antigas encontraram novas audiências no streaming. Uma nova geração descobriu Next Generation, Deep Space 9, Voyager. A base de fãs se reconstruiu sozinha, sem interferência corporativa.

Tudo que a Paramount precisava era contratar as pessoas certas e voltar com algo que valesse a pena assistir. Em vez disso, contrataram JJ Abrams, por própria confissão fã de Star Wars, não de Star Trek. Os filmes fizeram dinheiro transformando a franquia num genérico de ficção científica de ação. Into Darkness tentou recriar a morte de Spock de Wrath of Khan com personagens que mal se conheciam há dois filmes. Fan service sem fundação.

A era Kurtzman

Em 2017, Star Trek voltou à televisão com Discovery. Brian Fuller foi contratado, tinha currículo legítimo, havia escrito para Deep Space 9 e Voyager nos anos 1990. Mas queria transformar a franquia numa versão sombria de Game of Thrones. A Paramount discordou e demitiu Fuller. Então colocou no lugar as mesmas pessoas de Fuller, com as mesmas ideias. Eles também foram demitidos, por abuso com a equipe de roteiristas. Sobrou Alex Kurtzman, o homem mais responsável pelos piores filmes recentes da franquia. Em 2018, assinou contrato de cinco anos para expandir Star Trek em múltiplas produções.

Lower Decks, animação adulta que funcionou, cancelada após cinco temporadas. Prodigy, animação infantil tão amada que os fãs forçaram uma renovação com campanha de cartas, descartada para a Netflix. Strange New Worlds, a única série do período que recuperou o espírito clássico, encerrada com cinco temporadas enquanto o dinheiro ia para projetos que ninguém queria.

Terry Matalas assumiu a terceira temporada de Picard enquanto Kurtzman estava ocupado com seus projetos pessoais. Entregou o melhor Star Trek do período moderno. Os fãs enlouqueceram. As notas de audiência foram às alturas. Matalas fez campanha por um spin-off chamado Star Trek: Legacy. Os fãs assinaram petições. Kurtzman o demitiu.

Os números que não mentem

Section 31 chegou em janeiro de 2025. Tem 15% de aprovação do público no Rotten Tomatoes, o pior da história da franquia. A heroína é uma genocida sem arrependimentos que devora um globo ocular humano enquanto a trilha sonora de empoderamento toca ao fundo. A Paramount queria que o público torcesse por ela.

Não torceu.

Starfleet Academy estreou em janeiro de 2026. Custou pelo menos US$ 10 milhões por episódio. Na semana de estreia, não apareceu no top 10 de streaming da Nielsen. Uma live stream de uma estátua de Spock parada acumulou três vezes mais espectadores que a estreia ao vivo no YouTube. Audiência no Rotten Tomatoes: 42%. Críticos: 88%. Essa distância não é coincidência. A Paramount havia aprovado duas temporadas antes de um único espectador assistir a um único frame.

O que vem a seguir

O contrato de Kurtzman chega ao fim. Fontes internas afirmam que não vai ser renovado. A nova liderança da Paramount, David Ellison pela Skydance, olhou para os números, para o retorno sobre o investimento e decidiu que era hora de mudar. Circula o rumor de que os diretores de Dungeons & Dragons: Honor Among Thieves foram contratados para um novo filme de Star Trek, com recomeço total, sem conexões com a era Kurtzman ou com os filmes de Abrams.

Star Trek voltou antes. Depois do cancelamento original, virou fenômeno nas reprises. Depois de Nemesis, encontrou seu caminho de volta. Os fãs nunca somem de verdade, ficam esperando que alguém entregue algo digno de ser assistido.

O problema da última década não foi mudança. Foi trocar o que tornava Star Trek especial por qualquer tendência que Hollywood perseguia naquele momento. Game of Thrones era popular? Põe tudo sombrio. Marvel faturava bilhões? Vira franquia de ação. O Óscar premiou alguém do elenco? Cancela o projeto engavetado e faz o filme agora.

Roddenberry mostrou um futuro onde a cor da pele não importava porque todo mundo estava ocupado explorando a galáxia. Showrunners que passam o tempo ensinando lição para a audiência não entenderam nada do que ele fez. Contar uma boa história era a única coisa que precisavam fazer.

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