Reggie Fils-Aimé sempre foi o tipo de executivo que dizia o que pensava. Depois de deixar a Nintendo of America em 2019, ficou ainda mais à vontade. Em uma palestra recente na NYU, ele contou um episódio que resume bem como funciona a relação de poder entre a Amazon e seus parceiros — e como a Nintendo respondeu quando a linha foi cruzada.
A história volta à era do Nintendo DS. A Amazon, que já era uma força dominante no e-commerce americano, teria feito um pedido à Nintendo que, segundo Reggie, era simplesmente ilegal. Ele não detalhou a natureza exata da exigência, mas deixou claro o desfecho: a Nintendo cortou a Amazon como varejista.
Não suspendeu temporariamente. Não negociou. Cortou.
A Amazon opera com uma premissa que qualquer fornecedor global conhece bem: você precisa de nós mais do que nós precisamos de você. Essa assimetria é real em quase todos os mercados. A plataforma tem o tráfego, a infraestrutura, os dados do consumidor. Quem não entra, aceita as condições — ou fica de fora.
O problema é quando essa posição de força começa a extravasar para pedidos que cruzam a linha legal. Não é incomum. Empresas dominantes testam o limite do que podem exigir de parceiros. Quando o parceiro tem capital político, jurídico e financeiro suficiente para recusar, a conversa muda de tom.
A Nintendo, naquele momento, não era uma empresa pequena. Era dona de franquias bilionárias, de um hardware de sucesso e de uma marca que o consumidor americano reconhecia desde os anos 80. Não tinha obrigação de aceitar qualquer condição.
A decisão de cortar a Amazon não foi apenas juridicamente prudente — foi uma declaração. Você não pediu por favor. Você exigiu algo ilegal. Então acabou.
Isso contrasta com a postura de muitas empresas menores — e algumas não tão menores — que engoliam condições questionáveis para manter espaço nas prateleiras digitais. A Nintendo teve a estrutura e a disposição de agir diferente.
Reggie não revelou por quanto tempo durou a ruptura nem os detalhes de como a relação foi eventualmente retomada — hoje a Nintendo está presente na Amazon normalmente. Mas o episódio ficou registrado como um momento em que a empresa simplesmente disse não.
A palestra de Reggie na NYU não foi uma revelação com propósito estratégico. Foi um executivo sênior falando para estudantes de negócios sobre como o mundo real funciona. E o mundo real funciona assim: grandes plataformas às vezes pedem coisas que não deveriam. E a resposta de cada empresa define muito sobre seu caráter corporativo.
Em um momento em que a relação entre gigantes do varejo digital e fabricantes de hardware está mais tensa do que nunca — precificação algorítmica, guerras de marketplace, disputas sobre quem controla a experiência do consumidor — a história do Nintendo DS soa menos como anedota histórica e mais como padrão de comportamento.
A Amazon não mudou muito. A Nintendo também não. E Reggie, ao que parece, continua sendo o mesmo: direto ao ponto.