A Capcom lançou Pragmata, um jogo de ação científica ambientado numa base lunar abandonada. O protagonista é um astronauta que encontra Diana, uma androide infantil, e precisa protegê-la enquanto desvenda o que houve com a estação. Homens ao redor do mundo jogaram, viram o momento em que Diana entrega ao protagonista um desenho de giz de cera dos dois juntos — e pensaram: quero ter uma filha assim.
Isso, ao que tudo indica, é evidência de que são pedófilos, incels e propagandistas nazistas.
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Em Pragmata, você joga como Hugh Williams, um soldado enviado para investigar uma estação lunar em ruínas. No caminho, encontra Diana — uma androide com aparência de criança — e os dois precisam sobreviver juntos enquanto combatem IAs rogue e desvendam o que destruiu a base. É um jogo sobre proteção, vínculo e paternidade. Um dos temas mais antigos da narrativa humana.
O que emergiu nas semanas seguintes ao lançamento foi uma onda inesperada: homens, incluindo muitos que afirmavam não querer filhos, começaram a expressar abertamente o desejo de ser pais. Streams quebraram. Comentários transbordam de pessoas descrevendo o desejo de construir uma família. Streamers que disseram no começo que não queriam filhos terminaram chorando de alegria.
O que a indústria chama de dad simulator é um gênero consolidado e respeitado. The Walking Dead, The Last of Us, God of War, Detroit: Become Human, Bioshock — nos jogos. Logan, Monsters, Inc., True Grit no cinema. The Mandalorian na TV. A Estrada, de Cormac McCarthy, na literatura.
Esse tema existe porque toca em algo profundamente humano: o instinto de proteger, guiar e nutrir algo mais vulnerável do que você. Funciona porque é verdade. Pragmata não inventou nada — apenas fez bem.
Uma parte barulhenta da internet não conseguiu deixar as pessoas curtindo o jogo em paz. As acusações vieram em ordem crescente de absurdo: jogo de incel, personagem sexualizada, propaganda nazista — a última porque Diana é loira e tem olhos azuis. Não estou exagerando.
Houve de fato um subreddit fechado por conteúdo impróprio envolvendo a personagem. Genuinamente nojento. Mas os críticos não foram atrás dos criadores desse conteúdo — foram atrás de qualquer pessoa que simplesmente comprou o jogo. A distinção entre quem produziu material ofensivo e quem apenas jogou Pragmata no Steam parece impossível de fazer para esse grupo.
Uma das críticas sugeriu que Diana deveria ser feia, com dentes faltando e muco no nariz, para não ser problemática. A proposta é que uma criança só pode ser inofensiva se for desagradável de ver. O argumento diz tudo sobre quem o faz.
O aspecto mais revelador da polêmica não é a acusação de pedofilia — é o padrão que emerge quando você lê as reações em bloco. Homens expressando desejo de ter filhos são chamados de incels e predadores. Uma colunista chegou a escrever que, se um homem quer proteger uma criança que não é dele, ele é provavelmente um predador. Pelo mesmo raciocínio, tios, padrastos e pais adotivos são automaticamente suspeitos.
Pesquisas indicam que homens jovens hoje querem ter filhos em proporção pelo menos igual à das mulheres jovens. Instinto paterno existe — é diferente do materno, mas existe. A ciência confirma o que o senso comum já sabia. A ficção explora isso com sucesso há décadas. Nada aqui é novo ou surpreendente.
O que é novo é tratar o desejo de construir uma família como algo que precisa ser investigado.
Se um jogo de ficção científica sobre um astronauta protegendo uma criança-robô consegue fazer você querer ter filhos, provavelmente havia algo dentro de você que já queria isso faz um tempo. A obra apenas deu forma a um sentimento que vivia em segundo plano — e fez isso com competência suficiente para que ele viesse à tona.
Que a reação coletiva a isso seja chamar as pessoas de nazistas e pedófilos diz mais sobre o estado mental de uma certa fatia da internet do que sobre os jogadores. O instinto de proteger e criar não é uma patologia. Nunca foi. E nenhuma quantidade de fúria no Twitter vai mudar isso.