Sete anos. Esse é o tempo que Star Wars ficou fora das telonas. Sete anos, três temporadas de The Mandalorian, duas de Andor, uma de Obi-Wan, uma do Livro de Boba Fett, uma de Ahsoka — e mais umas quatro que você já esqueceu o nome até. A Disney inundou o Disney+ com conteúdo galático até a beira do limite de tolerância humana.
E ontem, no CinemaCon em Las Vegas, Jon Favreau subiu ao palco e disse: “É emocionante ter Star Wars de volta no cinema.”
Os ingressos abriram hoje. O filme estreia 22 de maio. E o trailer final chegou.
Pois é.
Star Wars: The Mandalorian and Grogu é o primeiro filme da franquia a ir para as telonas desde The Rise of Skywalker, em dezembro de 2019. Dirigido por Favreau — que co-escreveu o roteiro com Dave Filoni e Noah Kloor — o filme continua a história da série: Din Djarin (Pedro Pascal) e seu aprendiz Grogu são recrutados pela Nova República para caçar Senhores da Guerra Imperiais ainda espalhados pela galáxia.
O elenco inclui Sigourney Weaver como Coronel Ward, Jeremy Allen White dando voz a Rotta the Hutt (filho de Jabba, o Hutt), e Ludwig Göransson — o mesmo cara que fez a trilha de Dune 1, Dune 2, Black Panther e Oppenheimer — compondo a música. Não é uma lista ruim. É, aliás, uma lista absurda.
Aqui, assista ao trailer final lançado ontem à noite:
No painel da Disney no CinemaCon, os presentes viram a sequência de abertura completa do filme. E algo curioso aconteceu: The Mandalorian and Grogu vai ter créditos de abertura. Sim, uma primeira vez na história de Star Wars. Quem assistiu comparou com a abertura de Top Gun: Maverick — o tipo de abertura que funciona porque existe um filme antes, não um produto depois.
Antes dos créditos: Mando destruindo Snowtroopers numa base imperial nevada, Grogu usando a Força para implodir um droid de reconhecimento, os dois pilotando um AT-ST num penhasco de montanha. Favreau filmou 49 minutos de cenas em formato IMAX alternativo. O homem não estava fazendo série. Estava fazendo cinema.
Olha só: a linha central do trailer. “O velho protege o jovem, e depois o jovem protege o velho.” Simples. Humano. Narrativa. Sem sermão, sem checklist ideológico. A relação mais antiga do mundo: pai e filho — presente em Tolkien, em Campbell, nos melhores momentos do próprio Star Wars original.
Me responda uma coisa: quando foi a última vez que um filme Star Wars te fez sentir que o universo era expansivo e cheio de possibilidades?
O padrão é conhecido. Fase 1: Uma Nova Esperança, O Império Contra-Ataca, O Retorno de Jedi — narrativa pura, personagens com arcos reais. Fase 2: A trilogia Sequel insere a checklist de personagens novos que precisam substituir os velhos sem construir nada do zero. Fase 3: Rise of Skywalker — a agenda com história pendurada como desculpa. “Palpatine de alguma forma voltou.” Rey é Palpatine. Finn não tem arco. Nada fecha. O público sente, mas não consegue articular o problema.
Favreau não estava na sala quando essas decisões foram tomadas.
O que ele fez com The Mandalorian foi diferente desde o primeiro episódio: duas pessoas numa jornada. Um pai que não sabia que queria ser pai. Um filho que não sabia que queria ser filho. Narrativa arquetípica — a mais antiga do mundo. E ela funcionou precisamente porque não precisava de mensagem. Ela era a mensagem.
Quando você confia na história, a história carrega o significado sozinha. Quando você desconfia e empurra a mensagem na força, não sobra nada. Está vendo o padrão?
Agora esse arco vai para o cinema. Em IMAX. Com Ludwig Göransson. Com Sigourney Weaver. Com Embo de The Clone Wars em live-action. Com Zeb Orrelios de Star Wars Rebels. Com uma abertura que, segundo quem viu no CinemaCon, “não deixa dúvida de que isso foi feito para a tela grande”.
A mesma Disney que está apresentando esse filme esta semana demitiu 1.000 funcionários. Entre os afetados, grande parte do time de desenvolvimento visual da Marvel Studios — o grupo liderado por Ryan Meinerding, responsável pela identidade visual do MCU desde o primeiro Homem de Ferro. Artistas que construíram a estética de um universo inteiro, arrumando caixas enquanto o CEO Josh D’Amaro discursava em Las Vegas sobre o futuro brilhante da empresa.
A ironia é deliciosa. A empresa que destruiu Luke Skywalker em Os Últimos Jedi, que transformou a saga numa enxurrada de conteúdo de streaming sem visão, agora pede que você compre ingresso e acredite que desta vez é diferente. Enquanto demite os artistas que fizeram a magia acontecer.
A conta do excesso de conteúdo chega sempre. Em forma de demissão, de audiência caindo, de franquias que perderam o fio da narrativa. Simples assim.
Mas Mando e Grogu? Esse não é o produto do excesso. É o produto de quem construiu com cuidado e teve anos — não meses — para fazer um filme de verdade. Favreau disse no palco: “Aquela primeira cena com o navio voando por cima, mudou minha vida.”
Esse é o único tipo de pessoa que deveria fazer Star Wars. A ironia é que ele também trabalha para a Disney. Conecte os pontos.
O trailer final entregou. A abertura exibida no CinemaCon entregou. Elenco, compositor, diretor — tudo no papel aponta para um filme que quer ser cinema, não conteúdo de fundo de tela do Disney+.
Isso não é garantia. Não existe garantia em Hollywood. Mas pela primeira vez em quase sete anos, Star Wars vai ao cinema com alguém no comando que claramente ama a franquia mais do que ama o PowerPoint de marketing.
22 de maio. Os ingressos estão abertos.
Se o filme decepcionar, a culpa é da Disney. Se entregar, foi Favreau.
A conta de sete anos está vencendo. Aguardamos o pagamento.