Quando até a imprensa gringa percebe que o título era propaganda enganosa, a gente sabe que o cinema autoral brasileiro atingiu um novo patamar de autoindulgência.
Olha só. Você lê “O Agente Secreto”. Seu cérebro imediatamente monta a cena: Wagner Moura de terno impecável, drink na mão, explosões ao fundo, talvez uma perseguição de carro pelo Recife. Uma mistura de 007 com Tropa de Elite. A bilheteria dos seus sonhos.
Pois é. Senta que lá vem decepção.
A revista britânica Far Out Magazine acaba de publicar uma lista com os seis títulos mais enganadores da história do cinema. E adivinha quem aparece lá, brilhando na quinta posição, ao lado de clássicos como Cães de Aluguel e Trainspotting? Isso mesmo: o nosso queridíssimo épico pernambucano de Kleber Mendonça Filho, estrelado por Wagner Moura.
A conta chegou.
O jornalista Tim Bradley não foi exatamente diplomático na análise. Classificou o filme como um exemplo gritante de título enganoso e descreveu a experiência como quase três horas torturantes em que praticamente nada acontece. Disse ainda que o longa não trata de agente secreto nenhum, mas sim de gatos de duas cabeças desnecessários, política densa do Brasil dos anos 70 e cerca de quinze minutos de ação que só aparecem depois que você já desistiu de entender qualquer coisa.
A ironia é deliciosa: um filme que se chama “O Agente Secreto” e não tem agente secreto. É como entrar num rodízio de carne e descobrir que só serve salada.
Me responda uma coisa: se você precisa de uma campanha inteira de Cannes a Hollywood para explicar que o título “não é literal” e que “possui nuances dentro do contexto histórico-político da ditadura”, talvez — e aqui vai uma sugestão revolucionária — o título esteja errado?
Conecte os pontos. O filme ganhou dois prêmios em Cannes. Melhor Diretor para Kleber, Melhor Ator para Wagner. Emplacou quatro indicações ao Oscar — Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Filme Internacional, Melhor Direção de Elenco. E voltou de Los Angeles com as mãos tão vazias quanto a paciência do espectador médio no minuto noventa.
Zero estatuetas. Quatro indicações, nenhuma conversão. Repetiu o roteiro de Cidade de Deus em 2004, que pelo menos tinha a decência de entregar ação condizente com o título.
Aqui a coisa fica realmente interessante. O Rotten Tomatoes marca 98% de aprovação da crítica. A Far Out diz que é um filme feito e apreciado por gente que gosta de dizer para os outros que gosta de filmes — mas não dos populares. Está vendo o padrão? É o paradoxo eterno do cinema autoral brasileiro: a crítica especializada aplaude de pé enquanto o público comum verifica o relógio a cada dez minutos.
Wagner Moura é um ator extraordinário. Isso não está em discussão. O homem fez o Capitão Nascimento, fez o Pablo Escobar, fez Marighella. Mas existe uma diferença brutal entre atuar bem e entregar um filme que justifique o preço do ingresso — e principalmente o título da embalagem.
Kleber Mendonça Filho é talentoso. Bacurau provou isso. Aquarius também. Mas o gênio tem uma tendência perigosa a confundir ritmo contemplativo com conteúdo. Três horas é o tempo de um voo São Paulo–Recife. Pelo menos no avião você chega em algum lugar.
A lista da Far Out coloca o filme ao lado de Sorcerer (1977), Cães de Aluguel, Brazil de Terry Gilliam e Baby Driver. A diferença? Todos os outros entregam algo memorável apesar do título fora do lugar. O Agente Secreto entrega o título fora do lugar e para por aí.
O público entendeu. A Far Out entendeu. A Academia, ao não premiar, parece que também entendeu.
Só falta o cinema brasileiro entender que entre a genialidade e a teimosia existe uma linha muito fina — e que às vezes o agente mais secreto de todos é o roteiro, escondido atrás de três horas de boa fotografia.
Fontes: Far Out Magazine · CNN Brasil · Metrópoles · Estado de Minas