Imagine você ser acionista da Microsoft. Você viu a empresa gastar US$ 68,7 bilhões na aquisição da Activision Blizzard, o maior negócio da história dos games. Viu a criação da Microsoft Gaming, uma divisão inteira para unificar a estratégia de jogos do grupo. Ouviu promessas de exclusivos que justificariam comprar um Xbox em vez de um PlayStation. E agora vê a nova liderança chegar e perguntar, com toda a naturalidade do mundo: “Mas os exclusivos são realmente necessários?”
Bem-vindo à Xbox — onde a estratégia muda mais rápido que patch de day one.
Matt Booty, chefe de estúdios da Xbox, e Asha Sharma, nova CEO da divisão de games da Microsoft, confirmaram ao Polygon que estão em plena revisão de tudo. A Microsoft Gaming — marca criada para ser a grande unificadora do ecossistema de jogos da empresa — está sendo descontinuada. O modelo de exclusividade de plataforma está na mesa de cirurgia, com um projeto interno batizado de Project Helix ditando os termos da autópsia.
A reviravolta vem em meio ao que a dupla chama de “renascimento dos consoles Xbox”. Nenhuma empresa anuncia o renascimento de algo que está indo bem. O contexto é de uma Xbox que perdeu a guerra de consoles para o PlayStation pela terceira geração consecutiva, que viu franquias antes exclusivas chegarem ao PS5 — Halo, Sea of Thieves, Hi-Fi Rush —, e que apostou tão pesado no modelo de serviço via Game Pass que esqueceu de fazer as pessoas quererem o hardware.
Com Sharma no comando, a revisão inclui três frentes: exclusividade de títulos, as “janelas” de lançamento (quanto tempo um jogo fica no Xbox antes de migrar para outras plataformas) e a integração de inteligência artificial na produção dos games. Esse último ponto deve fazer a turma de desenvolvedores internos perder o sono. Quando uma empresa tech fala em “integração de IA na criação”, geralmente está falando em cortar gente com um sorriso de inovação no rosto.
O problema central da Xbox não é falta de estratégia. É excesso delas. Em dez anos, a divisão prometeu dominar o mercado com o Xbox One — falhou. Prometeu reinventar com o Xbox Series X — melhorou, mas não venceu. Prometeu conquistar via Game Pass — cresceu, mas não virou o jogo. Comprou a Activision por quase US$ 70 bilhões para ter CoD sob o mesmo teto. E agora: revisão geral.
Chesterton tinha um conceito chamado cerca de Chesterton: antes de demolir qualquer coisa, entenda por que ela foi construída. A Microsoft Gaming foi criada por uma razão. Os exclusivos foram prometidos por uma razão. Destruir isso sem uma visão clara do que vem depois não é pivotagem corajosa — é pânico executivo com terno bonito.
O gamer comum fica no meio desse campo minado sem saber se deve comprar o console, assinar o serviço ou migrar de vez para o PlayStation. Confiança é um ativo que demora anos para construir e minutos para demolir. A Xbox está demolindo a dela com eficiência rara.
A Xbox não precisa de uma nova CEO com novas ideias. Precisa de uma que tenha coragem de executar as antigas.