Em 2023, a Warner Bros. Discovery decidiu que Coyote vs. Acme — um filme completamente finalizado, com atores contratados e efeitos visuais prontos — valia mais como linha de dedução fiscal do que como produto. O estúdio enterrou o projeto, mandou os créditos embora e seguiu em frente.
Três anos depois, o trailer do mesmo filme bateu um recorde significativo de visualizações antes do lançamento. A ironia é tão cirúrgica que dispensa adjetivos.
Dirigido por Dave Green e estrelado por John Cena ao lado de uma versão animada do Coyote, o filme foi originalmente encomendado pela Warner como um longa-metragem híbrido — live-action com animação clássica da Looney Tunes. O orçamento estava feito. A produção estava feita. O estúdio simplesmente optou por não lançá-lo.
A decisão gerou um dos maiores escândalos da indústria recente. Diretores, roteiristas e atores viram anos de trabalho virar papel de parede contábil. A Guilda dos Diretores da América protestou. O público ficou indignado. A Warner seguiu impassível.
O projeto acabou sendo adquirido pela Ketchup Entertainment — distribuidora independente que se especializou em resgatar filmes que grandes estúdios descartam. E agora está prestes a chegar aos cinemas com um trailer que, segundo a Screen Rant, estabeleceu um recorde para a distribuidora antes mesmo da estreia.
A pergunta óbvia é: se havia demanda suficiente para bater recordes de engajamento, por que a Warner não lançou o filme em 2023?
A resposta é que a lógica dos grandes conglomerados de mídia frequentemente ignora o produto em si. Sob David Zaslav, a Warner Discovery entrou em modo de corte agressivo — cancelando séries prontas, abatendo filmes finalizados, reescrevendo as regras do que significa lançar entretenimento. A lógica era financeira no curtíssimo prazo. As consequências criativas e reputacionais, ninguém parou para calcular.
Coyote vs. Acme não era um projeto obscuro. Era uma propriedade com décadas de capital afetivo acumulado. O Coyote é um personagem universalmente reconhecível — engraçado, trágico, absurdo de uma forma que funciona para todas as idades. O conceito do filme, explorando o universo da ACME como cenário real dentro do mundo dos humanos, tinha o tipo de premissa que o público aceita imediatamente.
Nenhum executivo precisava de dados de pesquisa para perceber isso. Bastava ter assistido ao produto que haviam pago para fazer.
Recordes de trailer não garantem bilheteria. Isso é verdade. Mas eles dizem algo importante sobre apetite — e neste caso dizem que o público não esqueceu o que a Warner tentou varrer para debaixo do tapete.
Há também uma dimensão simbólica aqui que vai além do filme em si. Toda vez que um projeto cancelado ressurge e performa bem, a narrativa de que estúdios sabem o que fazem fica um pouco mais frágil. A Warner não cancelou Coyote vs. Acme porque era ruim — cancelou porque era conveniente. São coisas muito diferentes.
Se o filme estrear e funcionar nas bilheterias, vai ser uma daquelas histórias que a indústria cita por anos. Se fracassar, vai ser um consolo fácil para quem tomou a decisão original. Mas o recorde de trailer já disse o suficiente: havia público aqui. Sempre houve.
O Coyote passou cinquenta anos perseguindo algo que nunca alcançava. Desta vez, parece que ele foi mais longe que o estúdio que tentou enterrá-lo.