The Boys T5: A Sátira Que Trocou o Bisturi pela Marreta

Vamos começar com uma cena do Episódio 1 da Temporada 5 de The Boys: um personagem novo — roteirista de TV, nerd seboso com cabelo oleoso e óculos de garrafa — lamenta em voz alta como é impossível escrever um bom final de série. “Finais são os piores”, ele diz, acenando com a mão frustrada.

Eric Kripke colocou isso no episódio de abertura do seu próprio final de série. Sobre os próprios roteiristas da própria série. Para se antecipar às críticas.

A ironia é deliciosa. E um pouco triste.


O que aconteceu

The Boys retornou ao Prime Video em 8 de abril de 2026 com seus dois primeiros episódios da temporada final — 8 no total, com estreia semanal até 20 de maio. O episódio 3 caiu ontem, 16 de abril. A premissa: Homelander (Antony Starr) é agora o ditador de fato dos Estados Unidos, com “Campos da Liberdade” para dissidentes e a presidência na palma da mão. Butcher (Karl Urban) e o time de heróis anti-superpoderes tentam montar uma resistência desesperada com um vírus que mata supers.

As críticas chegaram antes da estreia: 100% no Rotten Tomatoes com as primeiras 7 episódios em mãos dos críticos. Parece perfeito, não é?

Me responda uma coisa: quando foi a última vez que 100% no Rotten Tomatoes significou que uma série era realmente boa para o público que paga a conta?

Pois é.


O que os críticos disseram de verdade

Leia a cobertura com atenção. A IGN, que viu os 7 episódios antes da estreia, foi direta: a série “gira em falso por vários episódios“. O plot é “lento no melhor caso”, com episódios iniciais restaurando o status quo e episódios posteriores demorando demais para construir qualquer senso de urgência. Para uma série em seu endgame, isso não é um pecado venial.

A crítica da Mashable foi ainda mais cirúrgica — e devastadora. A jornalista definiu a T5 como “a experiência de TV mais exaustiva que já tive“. O argumento dela é preciso: “cada episódio parece uma checklist de tópicos quentes — imigração, direitos trans, iniciativas de DEI — sem realmente dizer algo novo ou específico“. Não é sátira. É catecismo com sangue cenográfico.

Está vendo o padrão?

Até a Empire, que amou a temporada, admitiu o problema: “onde antes o comentário social parecia um espelho distorcido com dentes, o clima político do mundo real se tornou tão absurdo que parodiá-lo em 2026 simplesmente oferece um reflexo não tão obscuro de nossa realidade“. Em outras palavras: a série perdeu o passo porque a realidade ultrapassou a ficção. E ao invés de se reinventar, ela resolveu empurrar mais forte no mesmo botão.


O problema Kripke — e o talento desperdiçado

Aqui a coisa fica realmente interessante.

Eric Kripke construiu Supernatural durante 15 temporadas. Criou um mito. Depois pegou The Boys — uma série que na primeira temporada zoava todo mundo, esquerda e direita, corporação e ativista, herói e vilão — e resolveu fazer uma coisa diferente: escolher um lado e martelar até o espectador desistir.

Temporada 1: Homelander era um vilão shakespeariano universal. Vaidade, insanidade, poder sem freio. Qualquer pessoa de qualquer ideologia podia ver algo que conhecia.

Temporada 5: Homelander é um stand-in tão óbvio de Donald Trump que os roteiristas poderiam ter economizado tempo simplesmente colocando uma peruca laranja.

A “coragem” de criticar Trump em Los Angeles, rodeado de progressistas, dentro de uma série da Amazon, financiada por Jeff Bezos. Alguém dá um Nobel de Resistência para esse cara.

O mais cruel? Antony Starr é bom demais para o material que recebe. Toda crítica — mesmo as negativas — reconhece isso. O ator carrega esse cadáver narrativo nas costas com uma classe que beira o sobrenatural. Karl Urban idem. Os dois são atores extraordinários presos num show que virou TED Talk com orçamento de streaming.

O talento é inegável. O desperdício também.


A régua da sátira verdadeira

Existe uma régua simples para avaliar se uma série é sátira ou propaganda com punchline: sátira de verdade aponta para todos os lados. The Boys Temporada 1 fazia isso. Zoava a mídia corporativa, os super-heróis hipócritas, o ativismo performático, o cinismo político — sem distinção de lado.

Hoje a série tem um novo personagem: “Oh Father”, um televangelista super-herói hipócrita interpretado por Daveed Diggs. Novo alvo? Conservadores religiosos. Mais alvos novos? Um grupo de superpoderes influencers chamado “Teenage Kix” que dança TikTok em cima das atrocidades do Homelander e prende mães suburbanas por posts pro-Starlight.

Conecte os pontos. Todos os novos alvos apontam na mesma direção. Isso não é sátira. Isso é panfleto.

Pra completar: a temporada final tem um episódio que “se fragmenta em vinhetas de múltiplos personagens no dia a dia deles” — o que soa bem no papel, mas na prática é a série matando o momentum numa fase em que precisava de urgência máxima.


O veredito

The Boys Temporada 5 é uma série boa que poderia ter sido grande. Os personagens ainda funcionam. Antony Starr ainda vai te dar arrepios. Karl Urban ainda tem mais carisma do que qualquer vilão que a série criou. Existem episódios genuinamente fortes nos sete que os críticos viram.

Mas Kripke pegou a série mais anárquica do streaming — uma que podia ter entrado para a história como a versão televisiva de Network (1976), o filme que destruiu todo mundo com igual intensidade — e transformou num editorial de primetime. Funciona para quem concorda com cada ponto do editorial. Para quem quer entretenimento de verdade, existe uma sensação crescente de ter sido recrutado, não entretido.

A temporada final de The Boys vai terminar em 20 de maio. Falta pouco.

A pergunta é: vai terminar com um final que vai para a história, ou com um episódio que vai direto para os grupos de WhatsApp dos críticos de TV de Los Angeles?

A conta chega em maio. Simples assim.

The Boys — Temporada 5 está disponível no Prime Video, com novos episódios toda quarta-feira até 20 de maio de 2026.

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