Paramount Engole a Warner Bros. por US$ 110 Bilhões — e Hollywood Vai a Passeata (Com Muita Hipocrisia)

Mil assinaturas. Uma carta aberta. Muito pavor. Jane Fonda, Joaquin Phoenix, Mark Ruffalo, J.J. Abrams, Denis Villeneuve, Emma Thompson — mais de mil nomes do showbusiness americano se uniram esta semana numa missiva solene pedindo que autoridades regulatórias bloqueiem a fusão de US$ 110 bilhões entre Paramount e Warner Bros. Discovery. Hollywood está em polvorosa. O mundo está tremendo. Os comunicados estão sendo redigidos em papel timbrado. Me poupe.

O que aconteceu (a parte sem dramaturgia)

Em 27 de fevereiro de 2026, a Paramount Skydance — controlada por David Ellison, filho do bilionário Larry Ellison — formalizou a aquisição da Warner Bros. Discovery por US$ 110,9 bilhões, pagando US$ 31 por ação. O negócio foi aprovado unanimemente pelos conselhos de ambas as empresas e deve ser votado pelos acionistas da WBD em 23 de abril, com fechamento previsto para o terceiro trimestre de 2026. O que está em jogo: dois dos maiores estúdios de Hollywood sob um mesmo teto. Batman e SpongeBob. The Godfather e Top Gun. HBO Max e Paramount+ se fundindo numa única plataforma de streaming. A maior consolidação de mídia da história do entretenimento americano. E aí veio a carta.

A Revolta dos Ricos (Mas Com Boas Intenções, Juro)

A missiva, divulgada na segunda-feira dia 13, diz que a fusão “consolidaria ainda mais uma paisagem midiática já concentrada, reduzindo a competição num momento em que nossa indústria — e o público que servimos — menos pode se dar a esse luxo.” O documento cita declínio na quantidade de filmes produzidos, erosão da distribuição independente, eliminação de participação nos lucros e enfraquecimento dos créditos de tela. Tudo muito certo, aliás. Tecnicamente correto. Genuinamente preocupante. O problema é quem está assinando. J.J. Abrams. O mesmo que pegou Star Trek e transformou em blockbuster vazio de trezentas lens flares. O mesmo que pegou Star Wars — sim, aquele Star Wars — e entregou o Episódio VII mais seguro e derivativo que dinheiro pode comprar, seguido de um Episódio IX que contradiz tudo que ele mesmo estabeleceu. Agora J.J. está preocupado com a “diversidade do storytelling americano”. A ironia é deliciosa. Denis Villeneuve também assinou. O mesmo Denis Villeneuve que fez Duna com dinheiro da Warner Bros. e que provavelmente terá Duna: Parte Três financiada pelo conglomerado resultante da fusão. O mesmo gênio que, quando o estúdio confia nele e o deixa trabalhar, entrega obras-primas. Assinou a carta contra quem paga sua conta. Respeito à coerência, pelo menos. Mark Ruffalo. Joaquin Phoenix. Atores excepcionais que vivem pregando contra o capitalismo enquanto negociam cachês de oito dígitos com executivos de Hollywood. Agora se unem contra uma fusão corporativa. Que ameaça seus residuals. Pois é.

O Número Que Importa

Enquanto os atores assinam cartas, David Zaslav — o CEO da WBD que ficará rico com o negócio — deve embolsar mais de US$ 550 milhões em compensação quando a fusão fechar. Esse é o mesmo David Zaslav que cancelou o filme da Batgirl já pronto e na prateleira, cancelou séries inteiras para abater impostos, e passou os últimos três anos destruindo sistematicamente o catálogo de conteúdo que recebeu do WarnerMedia. O homem que mais contribuiu para enfraquecer a Warner Bros. vai sair com meio bilhão de dólares no bolso. A carta não menciona isso. Parabéns.

A Ironia que Gruda

Aqui a coisa fica realmente interessante. Por que a indústria chegou a esse ponto de consolidação desesperada? Simples. A era do streaming explodiu o catálogo de conteúdo — cada plataforma precisava de mais, mais, mais — e financiou anos de produção inflacionada, elencos estrelados, orçamentos absurdos. O público foi embora: cancelamentos em massa, fadiga de plataforma, resultados de bilheteria abaixo do esperado. As plataformas, subitamente sem dinheiro, precisam de escala para sobreviver. Fusões são o sintoma. O problema é a equação que não fechou. Parte desta equação — e aqui entro em território que os signatários da carta jamais admitirão — é que anos de conteúdo de qualidade questionável, séries com mais agenda do que roteiro, reboots que desrespeitam o público original e filmes que tratam o espectador como aluno de sala de aula criaram um problema de engajamento real. O público perdeu o hábito. O streaming perdeu o assinante. O dinheiro acabou. Mas a carta dos mil profissionais de Hollywood é sobre residuals. Não sobre o público.

O Que Vem Por Aí (E Vai Sair do Seu Bolso)

Seja aprovada ou bloqueada, a fusão deixa no ar algumas certezas. Paramount+ e HBO Max se tornando uma única plataforma significa menos concorrência direta. Menos concorrência significa menos incentivo para manter preços baixos. A Paramount já anunciou a fusão das plataformas após o fechamento do negócio. Se você assina as duas agora, prepare-se para uma assinatura única que vai custar mais do que qualquer uma delas separadas. Os US$ 6 bilhões em “sinergias” prometidos pela Paramount são eufemismo corporativo para demissões, corte de projetos e consolidação de equipes. Empregos reais de pessoas reais, não apenas papelada financeira. E a biblioteca resultante — Batman, Superman, Harry Potter, The Godfather, Top Gun, Duna, SpongeBob — vai estar nas mãos de um único conglomerado. Mais poder para menos gente. Isso a carta acerta. Mas acerta pelas razões erradas.

Simples Assim

Hollywood passou a última década consumindo suas próprias franquias, inflando orçamentos e afastando o público com produto cada vez mais desconectado do que as pessoas realmente querem assistir. A consolidação que agora aterroriza os signatários é a consequência matemática de uma indústria que perdeu a capacidade de se sustentar. A boa notícia: Batman ainda existe. The Godfather ainda existe. A má notícia: vão custar mais. Terão menos concorrentes como referência de qualidade. E as pessoas que deveriam ter evitado esse cenário estão assinando cartas em vez de olhar no espelho. Como sempre, quem paga é o assinante.