The Boys T5, Ep 3: Antony Starr É um Deus — Pena Que Kripke Decidiu Pregar para os Já Convertidos

A série mais anárquica do streaming está melhor. Mas ainda escolhe um lado — e aí deixa de ser sátira.

Me responda uma coisa: quando foi a última vez que você assistiu a um episódio de The Boys e riu de si mesmo tanto quanto riu do alvo?

Na primeira temporada, a série de Eric Kripke fazia isso com uma precisão cirúrgica que deixava todo mundo desconfortável. Corporações vendendo heroísmo como produto. Ativistas performáticos. Mídia subserviente. Políticos vendidos. A esquerda e a direita como dois lados da mesma moeda podre. Era Garth Ennis na veia — o cara que criou os quadrinhos e que nunca encontrou um sacrilégio que não adorasse cometer.

Aquilo era sátira. O que The Boys faz hoje tem outro nome.

O Episódio 3 Chegou. E Chegou Razoável.

Hoje, 15 de abril, a Prime Video lançou o terceiro episódio da temporada final, intitulado “No Cap, On God Bro”. É o episódio mais fraco da temporada até agora — o Den of Geek foi direto ao ponto com 2.5/5, chamando de “thematically worn” e admitindo que pularia o episódio numa remaratona. Mas aqui a coisa fica mais interessante do que parece.

Porque mesmo um episódio fraco de The Boys T5 é melhor que qualquer coisa da T4 — e isso, meu caro, já é vitória expressiva. A Temporada 4 foi um desastre tão monumental que a Forbes chamou a T5 de “course correction”, aquele raro fenômeno televisivo em que uma série final consegue recuperar o fôlego depois de afundar. Karl Urban está ótimo. Jack Quaid cresceu. E Antony Starr?

Antony Starr é um deus. Nesse e em qualquer episódio. Um Homelander cada vez mais messianicamente desequilibrado, vendo visões de sua figura materna Madelyn Stillwell (Elizabeth Shue), ajoelhado como criança, prestes a declarar divindade — e ao mesmo tempo genuinamente aterrorizante na cena em que parte para cima de Ryan. O ator carrega um cadáver narrativo nas costas com a graça de um atleta olímpico.

Pois É: A Sátira Tem Endereço Certo

Mas vamos lá. O Ep3 tem uma cena que sintetiza com perfeição o problema de Kripke. Vought lança um vídeo de propaganda apresentando o Soldado Boy como “amigo da América na Rússia”. O Deep aparece e declara, sorrindo: “Acontece que a Rússia não é nosso inimigo. É uma nação forte, voltada para a família, que não tolera banheiros transgênero.”

É uma piada boa. Tecnicamente boa. Mas aqui está a questão que nenhum crítico do mainstream tem coragem de fazer: quem está sendo zoado nessa cena?

Só um lado. Sempre só um lado.

Kripke declarou abertamente que quis escrever “uma versão de 1984 do que o autoritarismo rastejante parece na América”. Ele ficou “bummed” porque a eleição de 2024 aconteceu depois que ele já tinha roteirizado os acontecimentos — e a realidade confirmou a ficção. Ou seja: para Kripke, a profecia se cumpriu. Big Brother tem um partido.

Olha só. Garth Ennis escrevia personagens que eram vilões exatamente porque o poder corrompe — qualquer poder, qualquer ideologia. O Homelander original dos quadrinhos não tinha afiliação política porque o problema era o poder em si. Era Burke antes de Burke virar meme. Era Chesterton observando que o problema do mundo não é que as pessoas sejam más — é que as pessoas com poder raramente são boas o suficiente para ele.

Kripke pegou esse vilão universal e fez um cosplay editorial.

O Padrão de Sempre

Está vendo o padrão? É o mesmo de sempre:

Fase 1 — A série conta uma história sobre corrupção sistêmica e o preço do poder. Todo mundo leva porrada. A audiência se identifica porque a crítica é universal.
Fase 2 — A série insere “a mensagem” de forma elegante, mantendo ambiguidade suficiente para não alienar.
Fase 3 — A mensagem é a série. A história é o pretexto. O Homelander não é mais um espelho — é um alvo com nome.

The Boys chegou à Fase 3 lá pela Temporada 3. A T5 não reverteu isso. Melhorou a execução — o que é real e merece reconhecimento. Mas a bússola ideológica continua apontando em uma só direção.

A “coragem” de criticar o autoritarismo a partir de Los Angeles, rodeado de progressistas, financiado pela Amazon, distribuído globalmente. Praticamente um dissidente soviético. Alguém dá um Nobel para o Kripke.

O Que Salva a Temporada

O que salva The Boys T5 — e é genuinamente bom — é que Kripke não esqueceu de contar alguma história. O V1, o composto original que tornaria Homelander imortal, é um MacGuffin honesto. O retorno de Jensen Ackles como Soldado Boy está sendo gerenciado com inteligência. A tensão entre Kimiko e Frenchie é humana. E Stan Edgar voltando para “basking in boomer capitalism” enquanto o mundo explode é delicioso.

O episódio de hoje pode ser o mais fraco até agora. Mas a temporada, no conjunto, está entregando um final que a série merece — nem perfeito, nem a catástrofe que alguns temiam.

Antony Starr vai ganhar Emmy. Isso é certo. E vai merecer cada voto.

Pois é. A conta vai chegar — inclusive para o Homelander. E para a sátira que desistiu de zoar todo mundo.

The Boys T5 vai ao ar às quartas-feiras na Prime Video, com finale marcado para 20 de maio de 2026.

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