Me responda uma coisa: quando foi a última vez que uma grande empresa de entretenimento anunciou a adaptação de um jogo querido e você não fechou os olhos esperando o impacto?
Pois é. Eu também. Dez anos de Uncharted ruim, Assassin’s Creed sem alma, e cinco adaptações da Resident Evil que parecem feitas por alguém que nunca tocou o jogo original. A regra virou axioma: Hollywood pega IP de game amada, esvazia, vende.
Mas ontem, no CinemaCon 2026, em Las Vegas, a Sony Pictures fez algo incomum.
Anunciou o filme animado de Bloodborne. Com classificação R. Prometendo fidelidade total ao espírito do jogo. E — aqui a coisa fica realmente interessante — colocou como produtor um YouTuber irlandês que tem Bloodborne tatuado no braço.
Olha só.
Sanford Panitch, presidente da Sony Pictures Entertainment, subiu ao palco do CinemaCon e prometeu que o filme será “very true” ao espírito de Bloodborne — o jogo de 2015 desenvolvido pela FromSoftware, lançado exclusivamente no PlayStation 4, que vendeu mais de 9 milhões de cópias e se tornou um dos mais aclamados da história do medium.
O projeto é co-produzido pela PlayStation Productions, pela Lyrical Animation e por Seán McLoughlin, o Jacksepticeye — YouTuber com 48 milhões de inscritos, famoso por seus playthroughs de Bloodborne, que tem o jogo como favorito absoluto da vida inteira.
Classificação R confirmada. Animação. Sem diretor, roteirista ou elenco anunciados ainda. Sem data de lançamento. A Sony está no início do processo — mas escolheu berrar para o mundo que isso existe, e que vão fazer do jeito certo.
Primeiro ponto: classificação R. O título do jogo tem sangue no nome. O Hunter mergulha numa cidade vitoriana tomada por bestas, aberrações cósmicas e horrores que fariam Lovecraft pedir licença. Uma adaptação PG-13 seria insultante. Seria The Boys virando desenho da Nickelodeon.
A Sony olhou pro jogo, olhou pra fanbase, e disse: R. Simples assim.
Segundo ponto: animação. Escolha cirúrgica. Bloodborne tem um visual que só existe porque é um jogo — as arquiteturas impossíveis de Yharnam, as transformações de monstros que desafiam a lógica anatômica, os bosses que parecem pinturas de Hieronymus Bosch com movimento. Tentar replicar isso em live-action resultaria em CGI descartável. Animação dá liberdade total ao pesadelo estético que Hidetaka Miyazaki construiu.
Conecte os pontos: é exatamente o que a Sony fez com Spider-Man — Into the Spider-Verse e Across the Spider-Verse são os melhores filmes de herói da última década porque a animação não era limitação, era superpoder. Bloodborne pode trilhar o mesmo caminho.
Terceiro ponto: Jacksepticeye. Aqui, sei que você está franzindo a testa. Um YouTuber como produtor de filme. Parece piada de 1º de abril.
Mas espera.
Esse mesmo raciocínio foi aplicado quando Markiplier — YouTuber de horror — produziu, dirigiu e estrelou Iron Lung, baseado no game homônimo. O resultado? Um filme genuinamente perturbador que a indústria não teria feito melhor. Jacksepticeye é para Bloodborne o que McLoughlin foi para Iron Lung: o fã mais famoso do mundo, com skin no jogo e credibilidade real na comunidade.
Isso não é stunt de marketing. É um produtor que vai brigar por fidelidade dentro da sala de reunião porque ele sabe exatamente o que os fãs não vão perdoar.
“Vou fazer tudo ao meu alcance para que esta seja a MELHOR adaptação possível de Bloodborne”, disse McLoughlin ao anúncio. “Não é só meu jogo favorito de todos os tempos — eu sei o quão apaixonados são os fãs e quanta fome eles têm por mais conteúdo.”
A Sony está montando o que pode ser o portfólio mais impressionante de adaptações de games da história recente. CinemaCon 2026 foi palco de uma enxurrada:
Está vendo o padrão? A Sony está fazendo o que a Marvel fez no pré-Fase 4: escolhendo IPs com fanbase fiel, contratando gente que respeita o material original, e não se esquecendo do público que pagou a conta.
A Marvel destruiu esse modelo na Fase 4 e 5. She-Hulk, Secret Invasion, The Marvels — uma lista de cadáveres que Hollywood ainda finge não ver. A Sony parece estar aprendendo justamente com esses erros.
Não vou fingir que é festa completa. Projeto anunciado sem diretor, sem roteirista e sem data é promessa no papel. Hollywood tem um histórico impressionante de anunciar adaptações com reverência e entregar resultados que fazem o fã original pedir ressarcimento.
A FromSoftware também não é proprietária de Bloodborne — a Sony é. Isso significa que o estúdio pode aprovar qualquer coisa sem precisar do aval de Miyazaki. É um risco real. Uma Bloodborne genérica, com o Hunter reduzido a protagonista de ação sem peso, com Yharnam virada em cenário de perseguição de filmes de terror B, seria um desperdício monumental.
O talento de Miyazaki está no jogo. O sucesso do filme depende de alguém que entenda que Bloodborne não é sobre matar monstros — é sobre a degradação progressiva da sanidade num universo que expõe verdades que o ser humano não deveria conhecer. É Lovecraft filtrado por literatura vitoriana e angústia existencial.
Jacksepticeye entende isso. A pergunta é: ele vai ter poder suficiente para garantir que a sala de reunião entende também.
Mas por ora, a Sony escolheu fazer diferente. R-rated. Animação. Fã genuíno como guardião da franquia. Panitch prometeu fidelidade em voz alta, na frente de toda a indústria cinematográfica.
A conta chegou antes mesmo do filme começar. E eles sabem disso.
Yharnam espera. 🩸