Há uma fórmula silenciosa para matar uma franquia. Não é um fracasso de bilheteria. Não é uma crítica devastadora. É quando o produto final deixa de causar indignação e passa a causar indiferença. Star Trek: Starfleet Academy cruzou essa linha na primeira temporada — e levou a franquia junto.
A série se passa no século 32, 1.100 anos no futuro. É uma escolha curiosa para uma produção que parece ter sido escrita por pessoas que assistiram ao Star Trek original em clips no YouTube. O show acompanha um grupo de cadetes na recém-reconstituída Academia Starfleet — e se você não sabe por que ela precisou ser reconstituída, parabéns: você fez a escolha inteligente de não assistir Star Trek: Discovery.
Starfleet Academy não é um problema isolado. É o ponto final de uma destruição que durou uma década. Em menos de dois anos, três das maiores franquias do universo nerd encontraram seu fim definitivo: Star Wars (com The Acolyte), Doctor Who (com a série 15) e agora Star Trek. O que elas têm em comum vai além do fracasso comercial.
As três compartilham o mesmo DNA: temas ideológicos pesados direcionados a um público jovem que simplesmente não assistiu; desprezo evidente pelo cânone construído por seus criadores originais; hostilidade aberta às comunidades de fãs que transformaram essas histórias em fenômenos culturais; e o hábito de contratar roteiristas e atores com base em identidade, não em talento.
A série escalou Holly Hunter e Paul Giamatti — duas das melhores atrizes e atores em atividade — e conseguiu fazê-los parecer amadores. Hunter interpreta a reitora da Academia como alguém que tomou uma combinação imprudente de antidepressivos e estimulantes: incapaz de sentar em uma cadeira como adulta, falando em gírias contemporâneas que não existiriam dali a 1.100 anos, invocando “ativismo” e “mudança social” como se isso fosse profundidade dramática.
O elenco de cadetes segue a cartilha obrigatória: o Klingon que não quer lutar e prefere observar pássaros (e é gay, o que para o show é aparentemente equivalente a ser guerreiro), o holograma com positividade corporal e neuroatipicidade, a betazoide superpoderosa com traumas familiares, e o protagonista Gary Stu que hackeia qualquer coisa, luta contra qualquer um e seduz quem quiser.
Os buracos de roteiro não são falhas ocasionais — são o roteiro. Como alguém rouba comida em um universo com replicadores? Como uma organização criminosa minúscula conseguiu cercar todo o espaço da Federação com minas? Como um klingon nunca ouviu falar de jogo da velha mas conhece a expressão francesa bon appétit? A resposta de Kurtzman é sempre a mesma: não pergunte, apenas consuma o produto.
Starfleet Academy tem 88% no Rotten Tomatoes da crítica especializada — quatro pontos acima de Star Trek VI: A Terra Desconhecida e um ponto acima de Star Trek II: A Ira de Khan. A mesma equipe que produziu a série recebeu cinco indicações ao Razzie pelo longa Star Trek: Section 31. Não é um mistério. A maioria dos críticos que inflam a nota vem de sites que você nunca ouviu falar. O público sabe o que está vendo.
Alex Kurtzman assumiu Star Trek com a missão declarada de atrair novos públicos — especialmente jovens que achavam a franquia muito científica ou técnica. O resultado: uma geração que não assiste porque não conhece, e uma geração que conhecia e parou porque a série ficou irreconhecível.
Starfleet Academy terá uma segunda temporada. Strange New Worlds terá mais duas. O caixão ainda não fechou, mas o enterro já foi marcado.
O que Kurtzman nunca entendeu — e que os fãs tentaram explicar por uma década — é que Star Trek nunca foi sobre identidade. Foi sobre a humanidade. E em toda a sua obsessão com representação e mensagem, produziu a série mais desumanizada da história da franquia.
Felizmente, os episódios originais ainda existem. E o ódio por Starfleet Academy não vai apagar uma única memória de quem assistiu Jornada nas Estrelas com o pai numa tarde de sábado.