Me responda uma coisa: quando foi que o cinema perdeu a capacidade de fazer uma pergunta moral sem antes genuflectir diante do altar identitário?
“O Drama”, que acaba de estrear nos cinemas brasileiros, tinha tudo para ser essa pergunta. Kristoffer Borgli — o norueguês que nos deu “O Homem dos Sonhos” — reuniu Robert Pattinson e Zendaya numa premissa que Dostoiévski assinaria embaixo: três dias antes do casamento, Charlie descobre que sua noiva carrega um segredo condenável do passado. Como você continua amando alguém depois de descobrir a pior coisa que ela já fez?
A pergunta é antiga. É universal. É humana. Não pertence a nenhum gênero, nenhuma militância, nenhum hashtag.
E é exatamente por isso que Hollywood não consegue respondê-la.
Borgli começa bem. Os primeiros trinta minutos são competentes: comédia romântica com edição esperta, química real entre os protagonistas, o público se apega. A bomba cai. O dilema moral se instala. Até aqui, cinema de gente grande.
Aí o filme entra em pânico.
Porque o roteiro percebe que tem um protagonista masculino sofrendo. E no ecossistema cultural de 2026, isso é território minado. Um homem branco, heterossexual, bonito e privilegiado tendo crise existencial? O filme quase pede desculpas por existir.
Aqui a coisa fica realmente interessante — não pelo que o filme faz, mas pelo que ele não tem coragem de fazer.
Borgli constrói um tribunal moral genuíno. Coloca duas pessoas imperfeitas diante de uma situação sem resposta fácil. Mas ao invés de sustentar a ambiguidade — que é onde mora a grandeza narrativa, de Sófocles a Cormac McCarthy — ele recua. Os amigos do casal viram caricaturas moralizantes. A tensão dramática se dissolve em esquetes cômicos que quebram o ritmo. O terceiro ato tropeça porque o filme gastou energia demais tentando não ofender ninguém.
Pois é. O grande pecado de “O Drama” não é ser machista, como a crítica progressista já está carimbando. O grande pecado é ser covarde.
Covarde porque não sustenta a dor do protagonista masculino sem transformá-la em piada ou patologia. Covarde porque não dá a Emma espaço real de defesa sem transformá-la em símbolo de empoderamento. Covarde porque, no fundo, trata seus personagens não como seres humanos complexos, mas como peças num tabuleiro ideológico onde cada movimento precisa ser aprovado pelo comitê de sensibilidade.
Zendaya é impecável — isso é fato. Entrega uma performance com camadas que o material não merece. Pattinson também. Os dois constroem algo que poderia ser transcendente se o filme confiasse na própria premissa ao invés de ficar calculando quem tem permissão de sofrer na tela.
Conecte os pontos: quando um filme precisa pedir licença para explorar a dor de um personagem porque ele pertence ao grupo demográfico “errado”, a arte morreu. O que sobrou é propaganda com fotografia bonita.
A crítica identitária vai dizer que o problema de “O Drama” é dar espaço demais ao sofrimento masculino. Eu digo o contrário: o problema é que o filme não tem coragem de dar espaço suficiente ao sofrimento de ninguém. Nem de Charlie, nem de Emma. Porque dar espaço real ao sofrimento humano exige que você trate seus personagens como indivíduos — não como representantes de categorias sociológicas.
Dostoiévski fez Raskólnikov matar uma velha e passou 500 páginas dentro da cabeça dele. Não pediu desculpas. Não colocou aviso de conteúdo. Não consultou nenhum sensitivity reader. E criou uma das maiores explorações morais da literatura ocidental.
Borgli tinha uma fração desse material na mão. Dois atores excepcionais. Uma pergunta moral genuína. E escolheu fazer um filme que quer provocar mas morre de medo das consequências.
O resultado é tecnicamente competente e narrativamente castrado. Bonito de ver e vazio de sentir. Um filme que levanta uma questão universal e depois a transforma em problema identitário — como se culpa, perdão e amor fossem categorias que precisam de recorte de gênero para serem discutidas.
Cinema de verdade não pede permissão. Cinema de verdade incomoda porque trata o ser humano como ser humano — com toda a feiura, contradição e grandeza que isso implica. Sem filtro ideológico. Sem curadoria moral.
“O Drama” não faz isso. Faz o que Hollywood faz de melhor em 2026: embrulha covardia em papel de provocação e vende como arte.
Pattinson e Zendaya merecem um filme que confie neles. O público merece um filme que confie em si mesmo. E Borgli, que claramente tem talento, merece se libertar da camisa de força cultural que transforma todo dilema humano em campo de batalha identitário.
A conta chegou. E dessa vez, não tem hashtag que pague.