Quando foi que “atriz talentosa faz filme de super-herói” virou menos importante que “mulher existe em espaço nerd e isso é um ato político”?
Milly Alcock deu entrevista para a Vanity Fair sobre Supergirl. E o que poderia ter sido uma conversa sobre cinema, personagem e narrativa virou — como tudo vira em 2026 — um manifesto sobre a condição feminina no fandom. A imprensa engoliu de bom grado. A máquina de vitimização ligou os motores. E a pergunta que realmente importa ficou soterrada debaixo de três camadas de identitarismo: o filme vai ser bom?
Vamos por partes.
Alcock disse que existir como mulher em franquias nerd significa ter seu corpo comentado, que as pessoas sentem uma “propriedade estranha” sobre corpos femininos, e que ela não pode impedir isso. Tudo verdade? Provavelmente. A internet é um esgoto? Sem dúvida. Trolls existem? Desde que a primeira caverna teve parede para rabiscar.
Mas aqui a coisa fica realmente interessante.
Porque a Vanity Fair não publicou essa entrevista para denunciar trolls de internet. Publicou para construir uma narrativa preventiva: se você criticar Supergirl, é porque odeia mulheres. Se o filme fracassar, é porque o fandom é tóxico. Se a audiência não abraçar Kara Zor-El, é porque nerds são misóginos.
Está vendo o padrão? Eu vejo. É o mesmo de sempre.
É a blindagem identitária que Hollywood aprendeu a montar antes de cada lançamento. Deu errado com Ghostbusters 2016 — filme medíocre que se escondeu atrás de acusações de machismo. Deu errado com As Agentes 355 — fracasso comercial que culpou o público. Deu errado com a Capitã Marvel de Brie Larson — que transformou cada crítica legítima em prova de misoginia.
O roteiro é sempre o mesmo: antes da estreia, a atriz fala sobre o peso de ser mulher no espaço. A imprensa amplifica. O escudo está montado. Se o filme funciona, é vitória da representatividade. Se não funciona, é culpa do patriarcado.
E Milly Alcock merece mais do que isso.
Porque Alcock é genuinamente talentosa. Sua jovem Rhaenyra em House of the Dragon foi tão boa que roubou a série de atores com o triplo de sua experiência. Não porque era “representação feminina”. Porque era boa atuação. Ponto. Sem asterisco ideológico.
Olha só — sobre Scorsese e Ridley Scott. A matéria original trata os dois como velhos ranzinzas que não entendem o entretenimento moderno. A ironia, dizem, é que Scorsese faz filmes “para meia dúzia de catedráticos”.
Pois é. Aquela “meia dúzia” produziu Taxi Driver, Touro Indomável, Os Bons Companheiros e Os Infiltrados. Ridley Scott fez Alien, Blade Runner e Gladiador. Quando esses dois dizem que roteiros de super-heróis são fracos, talvez — e isso é apenas uma sugestão — valha a pena ouvir ao invés de ironizar.
Scorsese não é inimigo do cinema popular. É inimigo da preguiça narrativa. E se a indústria gastasse metade da energia que gasta construindo narrativas de vitimização em escrever roteiros melhores, talvez os veteranos não tivessem o que criticar.
Dito isso: Supergirl tem motivos reais para otimismo. E nenhum deles tem a ver com gênero.
Craig Gillespie dirigindo é excelente notícia. O homem fez “Eu, Tonya” — um filme que pegou uma figura controversa e a tratou como ser humano complexo, sem pedir permissão ideológica para explorar suas contradições. Gunn e Safran na produção são garantia de que a DC aprendeu a lição: Superman funcionou porque confiou na história, não no sermão.
A premissa de Kara é genuinamente promissora. Uma Supergirl cínica, traumatizada, que não vira heroína por dever moral abstrato mas por vínculo pessoal — o envenenamento de Krypto. Isso é narrativa com âncora emocional concreta. Isso é o que faz personagem funcionar: motivação individual, não alegoria coletiva.
E Jason Momoa como Lobo? Finalmente. O homem passou anos preso na camisa de força de “herói nobre” como Aquaman. Lobo é o oposto — mercenário anarquista, absurdo, violento, engraçado. Momoa nasceu para isso. É casting baseado em talento e adequação ao papel. Como deveria ser.
Conecte os pontos: tudo que faz Supergirl parecer promissora são elementos de cinema. Direção competente. Premissa com substância emocional. Casting inteligente. Universo narrativo que está funcionando.
Nada disso tem a ver com o fato de a protagonista ser mulher. E insistir que tem é rebaixar o próprio filme.
Quando você transforma cada lançamento com protagonista feminina em campo de batalha ideológico, você faz duas coisas: primeiro, garante que qualquer crítica legítima será descartada como machismo. Segundo — e isso é pior —, transforma a atriz em símbolo antes de dar a ela a chance de ser artista.
Alcock não precisa ser porta-voz de nenhuma causa. Precisa entregar uma performance que justifique o papel. E com base no que ela mostrou em House of the Dragon, as chances são boas. Não porque é mulher em espaço nerd. Porque é atriz competente em filme com estrutura.
A verdade que ninguém na Vanity Fair vai publicar: o fandom não é monolito misógino. Existe gente tóxica? Claro. Existe em todo grupo humano desde que o mundo é mundo. Mas a esmagadora maioria das pessoas que vai comprar ingresso de Supergirl em 26 de junho não se importa com o cromossomo da protagonista. Se importa com a história.
E se Gunn, Gillespie e Alcock entregarem uma boa história, o público vai abraçar. Como abraçou Alien com Ripley. Como abraçou Kill Bill com a Noiva. Como abraçou Jovens Bruxas, O Silêncio dos Inocentes, Mad Max Fury Road. Nenhum desses filmes precisou de escudo identitário. Nenhum pediu que você aplaudisse a protagonista por existir. Todos confiaram que a narrativa bastava.
Supergirl pode ser ótimo. Mas vai ser ótimo por mérito cinematográfico — ou não vai ser.
E não existe hashtag, entrevista preventiva ou narrativa de vitimização que substitua um bom roteiro.
A resposta é simples: faça um bom filme.