Quando tiros foram disparados do lado de fora do Washington Hilton durante o jantar dos correspondentes da Casa Branca — com o presidente Trump e o vice-presidente Pence presentes —, Danny Camp, roteirista da Marvel e da DC Comics, achou o momento adequado para uma publicação no X. Duas palavras: “Missed again” (em tradução livre: “errou de novo”).
O post circulou rapidamente. Contas políticas com centenas de milhares de seguidores compartilharam o print em minutos. Antonio Chavez foi direto no caption: “O escritor da DC Comics e Marvel, Danny Camp, está chateado que a tentativa de assassinato desta noite contra Trump não foi bem-sucedida.” Jack Posobiec amplificou. A repercussão foi imediata.
Confrontado pela repercussão, Camp adotou a estratégia clássica do desdém calculado: publicou uma foto de um alvo de dardos com a sugestão de que estava simplesmente falando sobre dardos online. Em seguida, passou a divulgar seus próximos eventos em convenções — não como alguém sob pressão, mas como quem convida o público para um bate-papo.
A Marvel e a DC não se pronunciaram. Nenhuma declaração, nenhum afastamento, nenhum comunicado. Isso não surpreende quem acompanha o padrão das editoras: o silêncio seletivo não é descuido, é política.
Camp não chegou a esta controvérsia sem aviso. Os últimos dois anos formaram um padrão bastante legível.
Na sua passagem pelos Ultimates da Marvel, a série estreou com America Chavez salvando a todos, substituiu o Hulk por uma mulher polinésia que leciona ao time sobre colonialismo branco, apresentou um Gavião Arqueiro nativo americano com pronomes they/them ligado à imagética de Standing Rock e transformou o símbolo de caveira do Justiceiro em emblema de neonazistas americanos. Em outubro de 2025, o próprio Camp declarou publicamente que a Marvel editorial lhe deu liberdade criativa total para escrever o livro tão politicamente carregado quanto quisesse — admissão que chegou enquanto os números de venda caíam consistentemente após o primeiro arco.
Em dezembro de 2024, Camp utilizou um painel de sua série na Image Comics — uma cena de bebê explodindo do peito de um homem em agonia — para zombar da Imaculada Conceição. Fez isso na véspera de Natal, enquanto promovia sua série Absolute Martian Manhunter simultaneamente.
Camp também liderou uma campanha de cancelamento em 2025 contra um criador argentino na Valiant Comics, alegando que um painel de Bloodshot continha alegoria antitransgênero. A campanha foi documentada. O criador argentino deixou a indústria. Camp seguiu escrevendo para as duas maiores editoras do mercado.
O problema aqui não é ideológico no sentido estrito — é o problema da dupla medida exposta em campo aberto.
Criadores que expressam qualquer opinião fora da linha progressista dominante nas editoras conhecem bem o que os espera: resistência organizada, boicote, ostracismo. Camp, por sua vez, liderou campanhas de cancelamento contra colegas, fez publicações de interpretação no mínimo ambígua durante um evento de segurança nacional, e zombou publicamente de símbolos religiosos. Resultado profissional: contratos intactos, lançamentos confirmados, agenda de convenções cheia.
A questão não é se Camp deve ser cancelado. Cancelamento é uma ferramenta destrutiva em qualquer direção. A questão é que as editoras estabeleceram, na prática, uma regra não escrita sobre quais opiniões têm custo profissional e quais não têm. Esse padrão corroe qualquer discurso sobre inclusão e diversidade que Marvel e DC venham a fazer com seriedade.
Enquanto isso, os números de venda seguem contando sua própria história — e ela não está sendo generosa com as apostas ideológicas dos últimos anos.