DC canoniza Jesus Cristo: a HQ proibida que demorou 37 anos para existir

Swamp Thing 1989 #1 finalmente publica a história perdida de Rick Veitch — e transforma a Paixão de Cristo em parte oficial do Universo DC

Trinta e sete anos. É quanto tempo levou para a DC Comics ter coragem suficiente de publicar uma história que, na época, foi considerada controversa demais para as prateleiras. Swamp Thing 1989 #1 chegou às bancas hoje, 29 de abril de 2026, e com ela um feito que poucos esperariam: Jesus Cristo entra oficialmente na cosmologia do Universo DC.

Não como piada. Não como metáfora vaga. Como protagonista real, tratado com reverência, com os eventos centrais do Novo Testamento — Última Ceia, Getsêmani, crucificação — agora parte do cânone oficial da editora.

A história que a DC enterrou

Em 1989, Rick Veitch estava no comando de Swamp Thing — o mesmo título que Alan Moore havia transformado em marco do quadrinho americano. Veitch planejou um encerramento épico: o elemental das plantas seria atirado para trás no tempo, testemunhando momentos históricos decisivos. O ápice seria sua chegada ao Oriente Médio do século I, no período da Paixão de Cristo.

A DC cancelou a edição na última hora. A justificativa girou em torno de uma capa — Swamp Thing em formato de cruz com coroa de espinhos — que os executivos consideraram ofensiva demais. Veitch saiu da série em protesto. A história virou lenda: a grande HQ não-publicada da DC.

O que ninguém que tomou essa decisão teve paciência de verificar: a história em si é profundamente respeitosa com o tema. Ao ponto de ser surpreendente.

O que a HQ realmente mostra

Veitch e o saudoso Michael Zulli construíram uma narrativa alinhada com os Evangelhos em seus aspectos centrais. Jesus é apresentado durante a Última Ceia, descrito de formas conflitantes pelos outros personagens — “mago branco”, “Filho de Deus” — mas sempre tratado com peso e dignidade. Sem escárnio. Sem desconstrução irônica.

A história introduz demônios atuando nos bastidores dos eventos bíblicos — os Magos manipulados por criaturas sobrenaturais, o Centurião Romano possuído. O detalhe não contradiz a teologia cristã tradicional sobre o papel das forças do mal na Paixão. É consistente, não provocativo.

E então vem o golpe criativo: o demônio que rima. Quem conhece o Universo DC reconhece imediatamente. A história revela que Etrigan, o Demônio de Jack Kirby, tem sua origem ligada diretamente à época bíblica — exorcizado pelo próprio Jesus Cristo antes de ser acorrentado à Terra. É um retcon elegante que conecta dois universos mitológicos com lógica interna genuína.

A crucificação é mostrada sem amenizações: “INRI” na placa, cordas, pregos nos pulsos — anatomicamente correto, ao contrário da iconografia popular. O Swamp Thing não é a cruz, como se especulava há décadas. Ele é testemunha e participante, carregando as memórias de Alec Holland, homem cristão praticante, que reconhece o que está vendo.

Por que isso importa

O Universo DC sempre teve uma relação ambígua com o monoteísmo abraâmico. The Presence como análogo ao Deus cristão, anjos, demônios e toda a mitologia sobrenatural da editora sempre coexistiu desconfortavelmente com deuses gregos, nórdicos e outros panteões. Esta história não resolve essa tensão — mas toma uma posição: os eventos centrais do Evangelho aconteceram, são reais dentro deste universo, e têm peso cosmológico.

Num mercado onde boa parte das decisões editoriais parece calculada para provocar controvérsia pelo prazer da provocação, é quase irônico que a história que ficou 37 anos na gaveta seja, afinal de contas, uma das mais respeitosas com o Cristianismo que uma editora americana já produziu.

A DC teve medo da sombra errada. A capa era polêmica; a história, não. E agora, três décadas depois, ela pode finalmente ser lida — e julgada pelo que realmente é.

Swamp Thing 1989 é uma minissérie de 4 edições, $4,99 cada. A #2 sai em maio com arte de Tom Mandrake. A série encerra em julho de 2026.

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