Quando Matt Murdock voltou à TV com Daredevil: Born Again, a promessa era simples: um show do Demolidor de verdade, sem o filtro pasteurizado da era pós-Endgame. A primeira temporada entregou. A segunda achou que valia a pena estragar o finale com política explícita.
O episódio final da segunda temporada, segundo o Polygon, estabelece paralelos entre os cidadãos de Nova York e os participantes do 6 de janeiro de 2021, o dia em que apoiadores de Donald Trump invadiram o Capitólio dos Estados Unidos. A metáfora não é sutil. E provavelmente não foi feita para ser.
O finale usa o conflito central da temporada para traçar uma linha entre a violência coletiva fictícia da série e o evento real. O paralelo é explícito o suficiente para que o próprio Polygon publique um artigo dedicado a “explicar” a analogia ao leitor — sinal claro de que os roteiristas queriam que a mensagem fosse notada, não subentendida.
Não é a primeira vez que a Marvel faz isso. The Falcon and the Winter Soldier tentou processar raça americana via vibranium e escudo. She-Hulk transformou a quarta parede em tribuna. Ms. Marvel quis ser ao mesmo tempo entretenimento juvenil e aula sobre islamofobia. O padrão está estabelecido, e a Marvel não demonstra interesse em revisá-lo.
Um roteiro pode ter posição política e ser excelente. All in the Family tinha. The Wire tinha. Network tinha. A diferença é que esses trabalhos construíam seus argumentos dentro da narrativa, os personagens viviam o argumento, não o anunciavam.
Quando um finale de show de super-herói precisa de um artigo de “explicação” para decodificar o simbolismo político, o roteiro falhou. Ficção com tese declarada é panfleto. E panfleto envelhece mal, especialmente quando a metáfora escolhida é tão carregada e divisiva quanto o 6 de janeiro.
O público que amou o Demolidor original da Netflix, adulto, exigente, fiel à complexidade moral do personagem, não é o público que quer ser avisado de como pensar sobre política americana no último episódio de uma temporada. Esse público quer Matt Murdock, não um comunicado do escritório criativo da Disney.
Matt Murdock é católico, crente em lei e ordem, movido por culpa e fé. Dos personagens da Marvel, é um dos menos compatíveis com a visão de mundo progressista que a empresa tenta embalar na maioria das produções. Usar o Demolidor como veículo de comentário sobre insurretos conservadores americanos tem uma torção que os roteiristas provavelmente não perceberam.
Ou perceberam e acharam irônico. De qualquer forma, o resultado é que o finale termina falando mais sobre o que pensa o departamento criativo da Disney do que sobre Matt Murdock.
Born Again era parte da tentativa da Marvel de recuperar uma base que foi se afastando ao longo de anos de produtos abaixo da média. A primeira temporada foi um aceno genuíno a esse público. A segunda, ao carregar o finale com simbologia política divisiva, afasta justamente quem voltou por amor ao personagem.
Metade do público vai aplaudir o paralelo. A outra metade vai desligar a TV sentindo que foi usada como audiência para um discurso que não pediu. Nenhuma das duas reações faz bem a uma franquia que precisa reconquistar confiança.
A temporada tinha sido boa. Pena que não souberam parar enquanto estavam na frente.