Na semana passada, a Disney dominou a CinemaCon. O trailer de Vingadores: Doomsday arrancou aplausos, o estúdio saiu como a grande vencedora do evento e tudo correu exatamente conforme o roteiro que Bob Iger gosta de assinar. Junto com a festa, veio uma lista: 37 filmes que cruzaram a marca de um bilhão de dólares em bilheteria global. Um número impressionante. Ou seria?
Depende muito de como você conta.
A Disney de hoje é um conglomerado construído tanto por aquisições quanto por criatividade própria. Isso não é segredo — é estratégia declarada. Em 2006, ela comprou a Pixar. Em 2009, a Marvel. Em 2012, a Lucasfilm. Em 2019, engoliu boa parte da Fox. Cada compra veio acompanhada de franquias já estabelecidas, personagens com décadas de base de fãs e maquinários de bilheteria que já funcionavam antes de Mickey colocar as mãos sobre eles.
O que a lista de 37 filmes faz, na prática, é somar numa única conta filmes como Homem de Ferro, Star Wars: O Despertar da Força, Toy Story 3 e Avatar — obras cujas fundações foram construídas por outras equipes, outras visões e outras empresas. A Disney financiou, distribuiu e lucrou. Mas afirmar autoria plena é outra conversa.
Filmes como O Rei Leão (2019), Frozen, Encanto, Moana e Zootopia são Disney de fato. Animação de estúdio, personagens originais ou adaptações diretas do seu próprio catálogo histórico. E vários deles cruzaram o bilhão sem problema.
Mas mesmo aqui é preciso distinguir: o Rei Leão de 2019 é um remake fotorrealista de um clássico de 1994. O crédito criativo original pertence a outra geração de artistas. O estúdio atual chegou depois, com CGI e Beyoncé, e faturou alto — mas não inventou a roda.
Isso não é crime. É capitalismo. A questão é narrativa: a Disney vende uma imagem de superioridade criativa que os números brutos sustentam mal quando você passa o olho linha a linha.
O próprio trailer que roubou a CinemaCon ilustra o dilema. Vingadores: Doomsday promete ser um evento cinematográfico colossal. O hype é real, a expectativa é legítima. Mas os Vingadores são uma criação de Stan Lee e Jack Kirby nos anos 1960, desenvolvidos durante décadas pela Marvel antes de a Disney entrar na jogada. O que o estúdio fez foi expandir e monetizar com maestria — e isso conta muito — mas é diferente de ter criado.
Curiosamente, a fase mais recente do MCU — a que a Disney controla há mais tempo e com mais autonomia criativa — é justamente a que mais sofreu críticas de fãs e analistas. Quarteto Fantástico, a nova onda de séries no Disney+, a tentativa de empurrar personagens novos sem ancoragem emocional prévia. O estúdio ainda colhe o que Kevin Feige plantou na era pré-dominação total, mas o solo começa a mostrar sinais de esgotamento.
Porque a indústria do entretenimento opera em ciclos de confiança. Quando um estúdio infla seus próprios números — mesmo que tecnicamente correto na contagem — ele cria uma percepção de invencibilidade que não corresponde à realidade criativa. E quando os filmes originais tropeçam (como Lightyear, como Strange World, como tantos outros), a queda parece mais dura do que deveria.
A Disney tem 37 filmes acima de um bilhão. É um número real. Mas o estúdio que criou todos eles do zero? Esse não existe. O que existe é uma máquina de aquisição, expansão e distribuição que funciona melhor do que qualquer concorrente — e que, de vez em quando, produz algo genuinamente bom por conta própria.
Na CinemaCon, ninguém perguntou quantos desses 37 a Disney realmente fez. Ninguém pergunta nunca. O trailer de Doomsday estava bombando demais para isso.