O The Boys Temporada 1 zoava todo mundo. Governo, corporações, ativistas, direita, esquerda — ninguém escapava. Era anárquico, violento, engraçado e, sobretudo, honesto na sua desonestidade. Era sátira de verdade.
Aquilo foi em 2019. O que estreou na última quarta-feira (8) na Prime Video ainda tem o logo da série. Tem sangue. Tem Antony Starr. Tem tudo — menos a anarquia que tornou a série imprescindível.
Me responda uma coisa: quando uma sátira só aponta pra um lado, o que ela é?
The Boys estreou sua quinta e última temporada na quarta-feira, 8 de abril, com dois episódios disponíveis simultaneamente no Prime Video. A temporada tem 8 episódios no total, com lançamento semanal às quartas, até o grande final em 20 de maio de 2026. A estreia mundial aconteceu em 19 de março, em Roma — porque quando você é a série mais “anticorporação” do streaming, a Amazon te manda pra Itália de primeira classe.
O showrunner Eric Kripke — o mesmo que criou Supernatural com 15 temporadas sem perder identidade — anunciou que esta seria a temporada final ainda antes da estreia da T4, em junho de 2024. A decisão foi dele, não do estúdio. A Prime Video, segundo relatos, queria mais temporadas. Kripke disse não.
Pois é. Pelo menos nessa parte ele foi fiel aos próprios princípios.
A temporada começa exatamente onde a quarta parou: Homelander (Antony Starr) é o senhor absoluto da América. O país tem campos de internação — carinhosamente chamados de “Freedom Camp” — onde Hughie (Jack Quaid), Mother’s Milk (Laz Alonso) e Frenchie (Tomer Capone) estão presos. Starlight (Erin Moriarty) tenta montar uma resistência. Butcher (Karl Urban), mais monstro do que nunca, reaparece com um vírus capaz de matar todos os supers do planeta — inclusive os “bons”.
No episódio 1, “Fifteen Inches of Sheer Dynamite”, a equipe tenta expor Homelander ao vivo com a filmagem do desastre do Voo 37. A Vought mobiliza influenciadores imediatamente: o vídeo é um deepfake gerado por IA. Homelander, furioso com os memes que circulam sobre ele, ordena a prisão de quem o ofenda online. O Deep (Chace Crawford) aparece como podcaster do movimento men’s rights — a piada mais precisa da temporada, e também a mais óbvia.
E então acontece o momento mais honesto dos dois episódios: A-Train morre.
Depois de temporadas sendo o atleta corporativo sem coluna, Reggie Franklin encontrou sua alma — e pagou o preço mais alto. Ele ri na cara de Homelander até o último segundo. Chama o homem mais poderoso do mundo de “pathetic, weak, sniveling loser.” Homelander quebra o seu pescoço. É o instante mais humano da estreia e o mais doloroso. Vai machucar. Merecidamente.
No episódio 2, “Teenage Kix”, o time se reagrupa. Soldier Boy (Jensen Ackles) é despertado por Homelander — parte por solidão, parte por estratégia. O vírus anti-super está sendo refinado. As engrenagens do apocalipse final começam a girar.
Aqui a coisa fica realmente interessante.
O Rotten Tomatoes está dando 98% de aprovação da crítica para a temporada final. Noventa e oito por cento. A She-Hulk tinha 96%. A diferença qualitativa entre as duas é considerável — mas o RT continua sendo o termômetro quebrado que sempre foi quando o assunto tem o sabor ideológico certo.
Enquanto isso, o Consequence.net — um dos poucos sites que disse a verdade sem medo do cancelamento da bolha — publicou uma crítica com o título mais honesto do ano: “In Its Final Season, The Boys Is No Longer Fun.” Não é mais divertido. Não é mais anárquico. A sátira, segundo eles, tornou-se “cada vez mais focada nos detalhes do mundo de hoje” — uma forma elegante de dizer que virou panfleto com orçamento de streaming.
O AV Club foi ainda mais direto: “The Boys, unfortunately, doesn’t have anything new to say.” A série que tinha TUDO a dizer perdeu a língua. Ficou presa num ciclo de “fascismo ruim, resistência corajosa” — com personagens chamados de Freedom Camp e uma plateia de apoiadores de Homelander usando bonés vermelhos que, nas palavras do crítico, poderiam muito bem ter escrito MAGA na frente.
Está vendo o padrão?
Existe uma régua simples para medir sátira de verdade: ela precisa zoar todo mundo.
A Temporada 1 de The Boys destruía a corporação, o herói imaculado, o ativista hipócrita, a mídia, o governo, o ativismo de vitrine — todos. Homelander era um monstro shakespeariano: ambíguo, trágico, assustador por razões que transcendiam qualquer agenda partidária. Era o Macbeth de uniforme americano. Era Iago com laser eyes. Era universal.
Na T5, Homelander é essencialmente Trump com superpoderes. O The Deep virou podcaster do movimento men’s rights. O regime tem campos de internação chamados Freedom Camp. Os apoiadores usam bonés vermelhos. A Vought chama vídeos comprometedores de deepfakes de IA. A analogia política deixou de ser subtext na T3. Na T5, ela é um cartaz A3 pregado na parede — e o roteiro te cutuca com o dedo apontando pra ele o tempo todo.
Isso não é coragem. Criticar a direita em Los Angeles, rodeado de progressistas, financiado pela Amazon — o maior conglomerado de e-commerce e logística do planeta — com orçamento de blockbuster, isso não é dissidência. Isso é conformismo de luxo com muito sangue cenográfico pra distrair.
Kripke criou Supernatural com 15 temporadas sem perder identidade. Tinha o talento. Tinha a visão. Escolheu desperdiçar o final da série mais anárquica do streaming servindo à bolha que já concorda com tudo que ele pensa. Parabéns. Praticamente um dissidente chinês.
E aqui entra o elogio que ele merece — e que o roteiro não merece.
Antony Starr é extraordinário. O homem é menacing, vulnerável, cômico e trágico simultaneamente. Cada cena que ele tem — desde o discurso onde fica furioso com os memes até a frieza clínica ao quebrar o pescoço de A-Train — é uma masterclass de performance. Ele carrega um cadáver narrativo nas costas com a graciosidade de um Olivier.
Karl Urban idem: Butcher continua sendo um dos personagens mais complexos do streaming, mesmo quando o roteiro o reduz a veículo temático de “como o poder corrompe os bem-intencionados.” Jensen Ackles como Soldier Boy ainda tem aquela presença irresistível que faz qualquer cena com ele funcionar.
O talento do elenco é inegável. A hipocrisia narrativa também.
Assista à T5. Vale — especialmente por Antony Starr. Vale pela morte de A-Train. Vale pelo espetáculo visual que a Amazon pagou caro para entregar.
Mas enquanto assiste, lembre-se do que a série era. Lembre-se da T1. Lembre-se de que, uma vez, nessa mesma série, ninguém era inocente — e essa era exatamente a graça.
Homelander merecia ser o vilão de todo mundo. Não só da metade que Kripke escolheu defender.
A conta chegou. E está sendo cobrada semanalmente, toda quarta-feira, até 20 de maio.
The Boys Temporada 5 está disponível na Prime Video com episódios semanais até 20 de maio de 2026. Episódios 1 e 2 já disponíveis. Novos episódios toda quarta, às 4h (horário de Brasília).