Spider-Noir é o que toda variante de personagem famoso deveria ser: Completamente diferente do original, e isso é ótimo! É o que justifica a existência de uma variante.Se for pra ver uma história do Peter Parker com um impostor no lugar do Peter, então é melhor ver o original mesmo… Mas Spider-Noir não é e nem teria como ser uma história de Peter Parker.

O universo é totalmente diferente (só o fato de se passar nos anos 30, quando o Aranha original sequer tinha sido criado ainda, já faz toda diferença). A personalidade desse Aranha é totalmente diferente. Seus vilões, ainda que com o mesmo nome, são diferentes. Até o dilema do personagem é uma variação do original, afinal é um Aranha mais velho, cansado, que nunca passou pelo trauma do Tio Ben, mas que perdeu seu grande amor e ao invés disso servir de combustível para combater o crime, o fez perder toda vontade de continuar. Afinal, sem poderes, sem responsabilidade.
Outro grande acerto foi apostar no público adulto, um erro persistente da Marvel com o personagem fora dos quadrinhos, que só ganha animações tão infantis que parece que seu cérebro vai derreter assistindo.
O Homem-Aranha é um herói leve e divertido, mas tem várias tramas realmente sérias entre as mais famosas das HQs. O arco do abuso de drogas do Harry, a morte da Gwen, a última caçada de Kraven, a morte de Jean DeWolff com o Devorador de Pecados… São todos clássicos do personagem que definitivamente não foram escritos para crianças… Então é bom ver algo do personagem fora das HQs num clima mais sério (e curiosamente até mais realista) pra variar.
Claro que isso me deu muita vontade de uma série live action mais séria do próprio Peter, mesmo com orçamento limitado, podendo focar mais na construção do seu universo e na interação entre personagens que são essenciais pra ele, mas que nunca terão o devido tempo de desenvolvimento em um filme.
Porém, de um jeito totalmente diferente, Ben Reilly (o Noir, não o clone) me cativou. Nicolas Cage ficou perfeito no papel, até porque ele sempre mandou bem nesses personagens canastrões meio erráticos. Tem tantos diálogos sensacionais (e que enfatizo, jamais veríamos saindo da boca de Peter Parker, o que é ótimo) que é até difícil enumerar.

Além de tudo isso, a série ainda mostra como é perfeitamente possível abordar temas políticos sem ficar lacrando na sua cara. Existe um candidato à prefeito que é muito importante pra história, mas que não é uma caricatura bizarra do Trump ou algo assim. Na verdade, a série faz questão de não colocá-lo em nenhum partido, tanto que o próprio Ben fala no final que “nem sabe se ele é democrata ou republicano”.
Além disso, você tem pautas raciais, afinal é NY dos anos 30 e existem personagens negros do universo do Aranha ali, mas não é forçado nem panfletário, é apenas algo natural que não teria como ser excluído da história. É até bizarro pensar que uma série que se passa nos anos 30 e que tem um negro no elenco principal força menos cenas de racismo (mesmo num período obviamente muito mais racista) do que uma série que se passa em 2020.
Inclusive, Robbie é uma das melhores coisas da série, também provando que a melhor forma de incluir diversidade é aproveitando bons personagens que já são minorias, ao invés de ficar substituindo outros personagens clássicos.
Em geral, Spider-Noir é uma grata surpresa pros fãs do personagem que andam recebendo só porcaria nos últimos anos. A série acerta em basicamente tudo que se propõe. As cenas de ação, que obviamente poderiam ser melhores, ainda são um tanto justificáveis por ser um Aranha mais velho e enferrujado enfrentando super vilões pela primeira vez num universo que visivelmente é mais “pé no chão” (ou seja, é um Aranha bem menos “super” do que estamos acostumados) e como o foco da série é muito mais no clima noir e investigativo do que na ação em si, isso não chega a atrapalhar a experiência. Pra mim, nota 10.
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