Olha só. Super Mario Galaxy: O Filme é aquele tipo de sequência que explica perfeitamente por que estúdios maiores acreditam que se um filme faz 1,3 bilhão, o problema nunca é fazer o mesmo, é fazer MAIS do mesmo.
Em 2023, o primeiro Super Mario Bros. recebeu críticas por ser “muito superficial, muito fan service, roteiro sem espinha dorsal”. Era verdade. Mas era DIVERTIDO. Era uma metralhadora de referências que funcionava porque aceitava o que era: um catálogo visual com carisma de personagem.
Quando a crítica pediu uma história “mais estruturada”, a Nintendo ouviu errado. Entendeu como “adicione TUDO”. Rosalina, Yoshi, Pikmin, R.O.B., Mr. Game & Watch, personagens de Star Fox — a tela fica um buffet de IP onde nada tem espaço respeitável para respirar.
Está vendo o padrão?
O diretor acreditou que o problema do primeiro era simplicidade. Então fez tudo maior, mais rápido, mais SATURADO. A trama agora é “Rosalina precisa ser salva de Bowser Jr.”, mas essa trama está a metros de distância, invisível sob uma pilha de cenas de ação, gags instantâneas e momentos de “olha, você conhece esse personagem?”.
A crítica brasileira notou isso. A G1 escreveu: “Para sua sorte, os mais de 40 anos de um universo incrível nos games fornecesse material mais que suficiente para entreter diferentes gerações” — uma forma educada de dizer que o material visual salvou um filme que, narrativamente, é um video-clipe de 98 minutos.
Aqui a coisa fica realmente interessante.
O primeiro filme foi criticado por ser superficial e SER DIVERTIDO APESAR DISSO. O segundo filme ouviu a crítica e tentou adicionar “profundidade” — desenvolvimento de Mario, relação entre Peach e Rosalina, conflito emocional entre Bowser e Bowser Jr. — mantendo a metralhadora visual ligada na potência máxima.
Resultado? Uma experiência “exaustiva” (palavra da Mashable). Nem profundo o suficiente para interessar adultos que esperavam substância, nem descontraído o suficiente para crianças que esperavam fartura.
O segundo ato é puro caos dirigido. Cenas cortadas com uma tesoura de filme blockbuster que diz “você tem que sair daqui em 98 minutos porque temos 5 mais esperando pra gravar este ano”. A Nintendo, produtora do projeto, estava supervisionando cada aspecto visual enquanto a história era… bem, uma desculpa bem-vinda.
Mas aqui vem o elogio que merece.
Visualmente, é impecável. Os detalhes dos personagens, os cenários que transitam entre diferentes “galáxias” (ler: diferentes games da Nintendo), a iluminação — tudo é trabalho profissional de estúdio com orçamento triple-A. Quando você desliga o cérebro e aprecia como espetáculo visual, o filme entrega.
E para crianças, honestamente, funciona. As crianças NÃO querem profundidade — querem cores, movimento, personagens conhecidos fazendo coisas. Mario Galaxy faz isso muito bem.
A questão é outra.
O primeiro filme lucrou 1,3 bilhão porque foi SIM superficial, mas essa superficialidade era HONESTA. Ele não tentava ser profundo — era um filme de IP voltado para crianças que usava nostalgia como combustível. Era uma coisa clara.
O segundo tenta ser tudo: ação, comédia, drama emocional, expansão de universo cinematográfico, fan service, filme infantil, entretenimento para adultos. Quando você tenta ser tudo, termina sendo nada de forma convincente.
E isso é o sintoma de uma indústria que aprendeu a lição errada: se algo lucrou, faça MAIS daquilo. Não “faça de novo”, não “faça diferente” — faça MAIOR, mais rápido, mais saturado.
A última crítica fala isso sem medo: “visualmente deslumbrante, mas narrativamente previsível”.
A previsibilidade é exatamente o ponto. Quando você já viu a fórmula funcionar uma vez, não existe surpresa na segunda. Existe conforto da repetição e frustração.
Veja bem, o filme já atingiu $438 milhões em bilheteria. Vai ser a segunda maior bilheteria de 2026. A Nintendo vai contar como sucesso.
E vai ser. Comercialmente.
Mas há uma diferença entre um filme ser BEM-SUCEDIDO e ser BOM. Super Mario Galaxy é o primeiro. Pode ser o segundo? Tecnicamente sim. Para crianças, possivelmente. Para nostálgicos do original? Com reservas.
O padrão é este: quando Hollywood adapta IP com sucesso, aprende a lição errada. Pensa “o público quer MAIS” quando, na verdade, o público quer “DIFERENTE, mas do mesmo que funciona”.
Toy Story 4 entendeu. Transformou a série ao dar morte e ressignificado. Vingadores: Ultimato entendeu — não foi só mais ação, foi conclusão narrativa. Homem-Aranha: Into the Spider-Verse entendeu — inovação visual e narrativa com linguagem própria.
Super Mario Galaxy optou pela segurança. É filme feito por comitê pensando em “o que o público quer é tudo isso ao mesmo tempo”.
Resultado: um filme que faz tudo, mas nada verdadeiramente bem — exceto a parte que custa dinheiro e oferece segurança visual.
A conta está sendo paga, e será paga pela próxima sequência.
Super Mario Galaxy: O Filme é o que acontece quando sucesso comercial é confundido com sucesso crítico. O filme funciona para crianças. Tecnicamente impressiona. Narrativamente, é o que toda sequência de blockbuster é quando aprende a lição errada dos produtores.
Pode assistir. Seus filhos vão adorar. Você vai sair do cinema perguntando por que um filme com esse orçamento, esse elenco, essa Nintendo supervisionando cada frame, ainda assim sente como um catálogo animado com trama pendurada como desculpa.
A resposta simples: porque é exatamente isso.
E a indústria segue cometendo o mesmo erro, filme após filme.
Super Mario Galaxy: O Filme — Direção: Aaron Horvath, Michael Jelenic. Roteiro: Matthew Fogel. Vozes: Chris Pratt, Anya Taylor-Joy, Charlie Day, Jack Black, Brie Larson, Donald Glover, Glen Powell. Produção: Illumination, Nintendo. Duração: 98 minutos | Classificação: PG. Distribuição: Universal Pictures.
Super Mario Galaxy: O Filme está em cartaz nos cinemas brasileiros desde 3 de abril de 2026.