The Boys S5 Chegou: Antony Starr É Incrível — e Kripke Ainda Deve Uma Explicação

A temporada final chega ao Prime Video com 98% no RT e o mesmo problema de sempre: ótimo ator, roteiro que escolheu um lado

Me responda uma coisa: quando foi a última vez que você assistiu The Boys e saiu pensando que a série havia zoado todo mundo com a mesma brutalidade? Esquerda, direita, corporação, ativista, herói, vilão — tudo no moedor?

Foi na primeira ou segunda temporada. Talvez na terceira, em alguns momentos. Depois disso, o espetáculo mudou. E não necessariamente para melhor.

The Boys Temporada 5 — a última — estreou ontem, 8 de abril, no Prime Video. Dois episódios de uma vez, com mais um por semana até o finale em 20 de maio. E sim: vale assistir. Mas com os olhos abertos para o padrão que Kripke construiu e que esta temporada final provavelmente não vai romper.


O Estado do Mundo, Segundo Homelander

A temporada 5 começa com uma América sob domínio de Homelander (Antony Starr). O cara assumiu o governo de fato, instalou um presidente fantoche, transformou dissidentes em prisioneiros de “Freedom Camps” — campos de concentração privatizados pela Vought com aquela linguagem corporativa que a série sempre fez bem — e está a caminho de se declarar literalmente um deus.

Hughie, Frenchie e Mother’s Milk estão presos. Starlight tenta montar uma resistência cada vez mais desesperada. Butcher reaparece com um vírus capaz de matar todos os Supes. E A-Train, que havia finalmente escolhido o lado certo, morre no primeiro episódio — numa cena que, admito, funciona muito bem como espelho da cena inaugural da série inteira.

Tudo isso é contado com aquele ritmo implacável que The Boys nunca perdeu. A série sabe fazer televisão. Esse ponto nunca esteve em discussão.


Antony Starr: O Homem Que Carrega o Peso

Vamos falar do elefante na sala — ou melhor, do herói com capa estrelada no céu acima da Terra.

Antony Starr é, sem exagero, um dos melhores atores desta geração de televisão. Seu Homelander é uma construção de precisão cirúrgica: megalomaníaco, inseguro, ridículo e genuinamente aterrorizante ao mesmo tempo. Numa cena ele ameaça destruir o mundo. Na próxima, está verificando memes sobre si mesmo e ficando ofendido com o que vê.

O problema nunca foi Starr. O problema é o que Kripke decide fazer com esse instrumento.

Eric Kripke confirmou publicamente — na Rolling Stone em 2022, no Hollywood Reporter agora em 2026 — que Homelander é seu “Trump analogue“. Ponto. Sem ambiguidade. O showrunner escolheu um lado e martelou até o espectador entender a mensagem.

Está vendo o padrão?


O Problema Chama-se Sátira Unilateral

Orwell escreveu A Revolução dos Bichos como crítica ao stalinismo. Não ao nazismo — ao STALINISMO. O cara tinha credenciais de esquerda e usou a forma satírica para atacar exatamente a coisa que a sua própria bolha não queria ver. Isso é coragem intelectual.

Kripke criou um universo onde corporações vendem heróis como produto, onde a mídia fabrica realidade, onde o poder corrói absolutamente. E então ficou com preguiça.

A Mashable disse o que muitos estavam pensando: a série acredita que simplesmente “name-dropping buzzwords é sátira suficiente”. Todo episódio parece uma checklist de pautas: imigração, direitos trans, DEI, MAGA — cada item riscado da lista sem que a série diga nada de novo ou específico sobre nenhum deles.

O AV Club foi mais direto ainda: “The Boys, infelizmente, não tem mais nada novo a dizer.

Aqui a coisa fica realmente interessante: o próprio Kripke admitiu que escreveu a S5 antes das eleições de 2024, achando que estava escrevendo ficção especulativa sobre “como seria um creep autoritário se Trump ganhasse“. O mundo superou o roteiro. E em vez de aprofundar a análise, a série ficou cada vez mais satisfeita com a própria confirmação.

Isso não é dissidência. É câmara de eco com orçamento de streaming.


98% no Rotten Tomatoes. Pois É.

A temporada 5 tem 98% de aprovação crítica no Rotten Tomatoes. Número impressionante.

Lembro que She-Hulk teve 96%. Lembro que Secret Invasion teve 60% de críticos e 33% de audiência. Lembro que o público da temporada 4 de The Boys dividiu exatamente porque parte dele percebeu o que estava acontecendo.

Como o New York Times documentou, conforme a sátira pró-Trump ficou mais explícita, fãs foram ao Rotten Tomatoes com avaliações negativas. O show continuou crescendo em audiência — 55 milhões de espectadores na S4, segundo a Amazon — mas a divisão entre crítica e público se tornou sintomática. Critics’ bubble é real, gente.

A boa notícia é que alguns críticos também sentiram o cansaço. A Mashable chamou a S5 de “a experiência televisiva mais exaustiva que já tive“. Isso não é elogio disfarçado.


O Que Funciona (E Funciona Muito)

Seria desonesto não reconhecer: tem coisa muito boa aqui.

Jensen Ackles como Soldier Boy continua sendo uma das adições mais bem-sucedidas dos últimos anos. Os momentos de conflito pessoal entre os membros do grupo — aquela coisa que a série fazia magistralmente na primeira temporada — voltam a aparecer, e quando aparecem, brilham. The Deep (Chace Crawford) como podcaster do manosfera é involuntariamente cômico e deliberadamente perturbador. E a reunião do Supernatural no episódio 5, com Jared Padalecki e Misha Collins como personagens que o próprio Kripke descreve como “uns babacas de verdade“, já vale a entrada.

Antony Starr continua incrível. Simples assim.


A Última Chance

Kripke tem oito episódios para provar que ainda sabe fazer a coisa que fez The Boys ser revolucionária em 2019: olhar para todos os lados com o mesmo bisturi.

A temporada final de uma série é sua oportunidade de legado. Breaking Bad terminou como obra-prima. Game of Thrones terminou como piada. Sopranos terminou como arte incompreendida que a internet só aceitou quinze anos depois.

The Boys tem material. Tem elenco. Tem um antagonista que, nas mãos certas, poderia ser o vilão definitivo desta era televisiva.

A pergunta que vai responder o veredicto final desta série é simples: Kripke vai deixar o Homelander ser o espelho de todos nós — da humanidade que escolhe conveniência sobre coragem, poder sobre princípio, meme sobre substância — ou vai deixar ele ser apenas o espantalho de um lado político específico?

A série mais anárquica do streaming tem uma última chance de ser anárquica de verdade.

Torço para que ela use.


The Boys Temporada 5 está disponível no Prime Video com dois episódios estreados em 8 de abril. Novos episódios todas as quartas-feiras até o finale em 20 de maio de 2026.

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