Me responda uma coisa: quando foi a última vez que você assistiu The Boys e saiu pensando que a série havia zoado todo mundo com a mesma brutalidade? Esquerda, direita, corporação, ativista, herói, vilão — tudo no moedor?
Foi na primeira ou segunda temporada. Talvez na terceira, em alguns momentos. Depois disso, o espetáculo mudou. E não necessariamente para melhor.
The Boys Temporada 5 — a última — estreou ontem, 8 de abril, no Prime Video. Dois episódios de uma vez, com mais um por semana até o finale em 20 de maio. E sim: vale assistir. Mas com os olhos abertos para o padrão que Kripke construiu e que esta temporada final provavelmente não vai romper.
A temporada 5 começa com uma América sob domínio de Homelander (Antony Starr). O cara assumiu o governo de fato, instalou um presidente fantoche, transformou dissidentes em prisioneiros de “Freedom Camps” — campos de concentração privatizados pela Vought com aquela linguagem corporativa que a série sempre fez bem — e está a caminho de se declarar literalmente um deus.
Hughie, Frenchie e Mother’s Milk estão presos. Starlight tenta montar uma resistência cada vez mais desesperada. Butcher reaparece com um vírus capaz de matar todos os Supes. E A-Train, que havia finalmente escolhido o lado certo, morre no primeiro episódio — numa cena que, admito, funciona muito bem como espelho da cena inaugural da série inteira.
Tudo isso é contado com aquele ritmo implacável que The Boys nunca perdeu. A série sabe fazer televisão. Esse ponto nunca esteve em discussão.
Vamos falar do elefante na sala — ou melhor, do herói com capa estrelada no céu acima da Terra.
Antony Starr é, sem exagero, um dos melhores atores desta geração de televisão. Seu Homelander é uma construção de precisão cirúrgica: megalomaníaco, inseguro, ridículo e genuinamente aterrorizante ao mesmo tempo. Numa cena ele ameaça destruir o mundo. Na próxima, está verificando memes sobre si mesmo e ficando ofendido com o que vê.
O problema nunca foi Starr. O problema é o que Kripke decide fazer com esse instrumento.
Eric Kripke confirmou publicamente — na Rolling Stone em 2022, no Hollywood Reporter agora em 2026 — que Homelander é seu “Trump analogue“. Ponto. Sem ambiguidade. O showrunner escolheu um lado e martelou até o espectador entender a mensagem.
Está vendo o padrão?
Orwell escreveu A Revolução dos Bichos como crítica ao stalinismo. Não ao nazismo — ao STALINISMO. O cara tinha credenciais de esquerda e usou a forma satírica para atacar exatamente a coisa que a sua própria bolha não queria ver. Isso é coragem intelectual.
Kripke criou um universo onde corporações vendem heróis como produto, onde a mídia fabrica realidade, onde o poder corrói absolutamente. E então ficou com preguiça.
A Mashable disse o que muitos estavam pensando: a série acredita que simplesmente “name-dropping buzzwords é sátira suficiente”. Todo episódio parece uma checklist de pautas: imigração, direitos trans, DEI, MAGA — cada item riscado da lista sem que a série diga nada de novo ou específico sobre nenhum deles.
O AV Club foi mais direto ainda: “The Boys, infelizmente, não tem mais nada novo a dizer.“
Aqui a coisa fica realmente interessante: o próprio Kripke admitiu que escreveu a S5 antes das eleições de 2024, achando que estava escrevendo ficção especulativa sobre “como seria um creep autoritário se Trump ganhasse“. O mundo superou o roteiro. E em vez de aprofundar a análise, a série ficou cada vez mais satisfeita com a própria confirmação.
Isso não é dissidência. É câmara de eco com orçamento de streaming.
A temporada 5 tem 98% de aprovação crítica no Rotten Tomatoes. Número impressionante.
Lembro que She-Hulk teve 96%. Lembro que Secret Invasion teve 60% de críticos e 33% de audiência. Lembro que o público da temporada 4 de The Boys dividiu exatamente porque parte dele percebeu o que estava acontecendo.
Como o New York Times documentou, conforme a sátira pró-Trump ficou mais explícita, fãs foram ao Rotten Tomatoes com avaliações negativas. O show continuou crescendo em audiência — 55 milhões de espectadores na S4, segundo a Amazon — mas a divisão entre crítica e público se tornou sintomática. Critics’ bubble é real, gente.
A boa notícia é que alguns críticos também sentiram o cansaço. A Mashable chamou a S5 de “a experiência televisiva mais exaustiva que já tive“. Isso não é elogio disfarçado.
Seria desonesto não reconhecer: tem coisa muito boa aqui.
Jensen Ackles como Soldier Boy continua sendo uma das adições mais bem-sucedidas dos últimos anos. Os momentos de conflito pessoal entre os membros do grupo — aquela coisa que a série fazia magistralmente na primeira temporada — voltam a aparecer, e quando aparecem, brilham. The Deep (Chace Crawford) como podcaster do manosfera é involuntariamente cômico e deliberadamente perturbador. E a reunião do Supernatural no episódio 5, com Jared Padalecki e Misha Collins como personagens que o próprio Kripke descreve como “uns babacas de verdade“, já vale a entrada.
Antony Starr continua incrível. Simples assim.
Kripke tem oito episódios para provar que ainda sabe fazer a coisa que fez The Boys ser revolucionária em 2019: olhar para todos os lados com o mesmo bisturi.
A temporada final de uma série é sua oportunidade de legado. Breaking Bad terminou como obra-prima. Game of Thrones terminou como piada. Sopranos terminou como arte incompreendida que a internet só aceitou quinze anos depois.
The Boys tem material. Tem elenco. Tem um antagonista que, nas mãos certas, poderia ser o vilão definitivo desta era televisiva.
A pergunta que vai responder o veredicto final desta série é simples: Kripke vai deixar o Homelander ser o espelho de todos nós — da humanidade que escolhe conveniência sobre coragem, poder sobre princípio, meme sobre substância — ou vai deixar ele ser apenas o espantalho de um lado político específico?
A série mais anárquica do streaming tem uma última chance de ser anárquica de verdade.
Torço para que ela use.
The Boys Temporada 5 está disponível no Prime Video com dois episódios estreados em 8 de abril. Novos episódios todas as quartas-feiras até o finale em 20 de maio de 2026.