Eric Kripke conseguiu. The Boys Temporada 5: O Enterro de Uma Série Que Já Chegou Morta

Prime Video estreia temporada final com episódio duplo, morte impactante e Homelander no auge do terror


Eric Kripke conseguiu. The Boys Temporada 5: O Enterro de Uma Série Que Já Chegou Morta

Houve um tempo em que The Boys era perigosa. Não perigosa no sentido de “ai, que ousadia criticar a direita” — perigosa de verdade. Uma série que olhava para o espectro político inteiro e dizia: vocês são todos ridículos. O progressista performático levava porrada. O conservador hipócrita levava porrada. A corporação levava porrada. O ativista de sofá levava porrada. Era anarquia narrativa. Era Garth Ennis canalizado por gente que entendia que sátira de verdade não tem lado — tem alvo, e o alvo é todo mundo.

Isso morreu. E Eric Kripke segurou a pá.

O problema não é ter opinião. É só ter uma.

Vamos estabelecer algo de saída: ninguém com dois neurônios funcionais assiste ficção esperando neutralidade suíça. Toda narrativa carrega visão de mundo. Orwell tinha. Huxley tinha. Kubrick tinha. A diferença é que esses caras confiavam na inteligência do espectador para chegar lá sozinho. Kripke não confia. Kripke precisa que você entenda. Precisa que você concorde. E quando um showrunner precisa que você concorde, ele não está mais fazendo arte — está fazendo catequese.

A Temporada 5 abre com campos de internamento chamados “Freedom Camps.” Entendeu? Freedom. Camps. Porque se fosse só “campos de detenção” talvez alguém não captasse a referência. Homelander corta programas de diversidade no governo. Manda prender quem posta meme. Faz culto de personalidade com estética de rally. A cada cinco minutos, a série para, olha pra câmera e pergunta: “Entendeu? É o Trump. ENTENDEU?”

Sim, Eric. Entendi na temporada 3. E na 4. E agora, na 5, eu entendi de novo. Obrigado pela repetição. Muito educativo. Posso ir embora?

A morte da sátira é a literalidade

Quer saber o que fazia a Temporada 1 funcionar? Ambiguidade. Homelander não era “Trump.” Homelander era o arquétipo do poder sem accountability — podia ser um CEO da Big Tech, um general do Pentágono, um pastor evangélico, um ditador sul-americano, era o Xandão. Era universal. Qualquer pessoa em qualquer país do mundo olhava e reconhecia. Era espelho, não caricatura.

Agora Homelander é um cosplay editorial do New York Times. Cada fala dele parece ter sido revisada por um fact-checker da CNN para garantir máxima correspondência com o ciclo de notícias americano. Isso não é sátira. Isso é fanfic política de gente que confunde Twitter com o mundo.

E aí está a grande ironia que Kripke não percebe: ao transformar Homelander numa alegoria 1:1 de um único político, ele diminuiu o personagem. Reduziu um vilão shakespeariano a um meme de resistência liberal. Parabéns. Você pegou um dos melhores antagonistas da televisão moderna e transformou num cartaz de protesto da Marcha das Vadias.

Antony Starr merece um pedido de desculpas

Vou dizer o que todo mundo pensa e ninguém publica porque a patrulha do consenso não deixa: Antony Starr está carregando um cadáver narrativo nas costas com a força de um ator que claramente é bom demais para o material que está recebendo. A cena dele chorando diante de Soldier Boy? Extraordinária. Sabe por quê? Porque naqueles trinta segundos, o roteiro esqueceu de ser panfleto e deixou o personagem ser humano. É a exceção que confirma a regra de que quando The Boys confia no drama, funciona — e quando resolve ser o braço cultural do Partido Democrata, vira um editorial ilustrado de US$ 500 milhões.

A-Train e a arte de confundir acerto pontual com qualidade geral

A morte do A-Train é boa? É. É bem construída, fecha um arco de cinco temporadas, tem peso emocional. Ponto. Agora me diga: desde quando uma cena boa redime duas horas de conteúdo medíocre? Se eu te servir um jantar de sete pratos e seis forem intragáveis, você vai elogiar o restaurante por causa da sobremesa?

Esse é o truque retórico que toda crítica positiva desta temporada está usando: “sim, a panfletagem é pesada, MAS a morte do A-Train…” — como se uma execução competente de roteiro compensasse o colapso ideológico de uma série inteira. Não compensa. É anestesia narrativa. É o açúcar que disfarça o remédio.

O verdadeiro problema: mais uma IP assassinada no altar da mensagem

Coloque The Boys na lista. Star Wars. Marvel. Doctor Who. Rings of Power. Velma. Toda propriedade intelectual que Hollywood decidiu transformar em veículo ideológico antes de ser entretenimento. O padrão é sempre o mesmo: a primeira fase funciona porque conta uma história. A segunda fase começa a inserir “a mensagem.” A terceira fase é a mensagem, com uma história pendurada nela como desculpa.

The Boys estava na fase 1 até a Temporada 2. A Temporada 3 foi transição. A partir da 4, é pregação com orçamento de streaming. E o 98% do Rotten Tomatoes? Me poupe. O Rotten Tomatoes virou o carimbo de aprovação da bolha cultural americana — o mesmo site que deu 96% pra She-Hulk. Quando o termômetro está quebrado, a temperatura que ele marca é irrelevante.

Se eu quiser propaganda política custando bilhões, assisto C-SPAN

Aqui está minha proposta: se Eric Kripke quer fazer comentario político, que faça um podcast. Que escreva um livro. Que vá pra um palanque. Mas não pegue uma série que pertence ao público que a construiu, que nasceu como uma desconstrução anárquica e irreverente do gênero de super-heróis, e a converta num megafone unidirecional dos seus valores pessoais enquanto finge que está “apenas refletindo a realidade.”

Sabe o que é “refletir a realidade”? É mostrar que o mundo é complexo. É admitir que as pessoas que discordam de você não são todas vilãs de desenho animado. É reconhecer que sátira que só aponta pra um lado não é sátira — é propaganda com punchline.

The Boys morreu fazendo o que Hollywood faz de melhor ultimamente: subestimando o público. E o pior? Morreu achando que estava sendo corajosa.


The Boys Temporada 5 está no Prime Video. Novos episódios toda quarta-feira. Mas se você quer uma série que ainda respeita sua inteligência, abra um livro.

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