Wagner Moura entrou pra Star Wars e eu fico genuinamente feliz por ele. De verdade. O cara é um ator absurdo — Capitão Nascimento é patrimônio cultural, o Escobar dele em Narcos é referência mundial, e se ele fez a Lucasfilm inteira parar o cronograma pra esperá-lo, é porque o talento justifica. Ponto. Sem discussão.
Dito isso…
Alguém precisa falar.
Wagner Moura — o mesmo sujeito que faz discurso contra o capitalismo em Cannes vestindo terno Armani — agora recebe um cheque multimilionário da Disney, a maior corporação de entretenimento do planeta, subsidiária de um conglomerado que opera na China sem abrir a boca sobre campos de concentração uigures, e vai pra entrevista falar de “representatividade” como se estivesse fazendo trabalho voluntário na periferia de Salvador.
Meu irmão. Você está recebendo em dólar. Da Disney. A empresa que cortou o John Boyega do pôster de Star Wars na China pra não ofender o mercado chinês. ESSA Disney. E você tá falando de representatividade latino-americana como se a motivação deles fosse justiça social e não uma planilha de mercado que diz que a América Latina tem 650 milhões de potenciais assinantes do Disney+.
Mas vamos lá. Vamos montar o dossiê da hipocrisia ambulante mais talentosa do cinema brasileiro.
O revolucionário de cobertura
Wagner Moura é contra o sistema. Ele deixa isso muito claro. Ele é contra a desigualdade. É contra o imperialismo americano. É contra o grande capital. É a favor dos oprimidos, dos invisíveis, dos excluídos. Lindo. Comovente. Me passa o endereço da cobertura dele em Los Angeles que eu mando flores.
O cara saiu do Brasil — onde pagaria imposto pra financiar os programas sociais que ele defende em entrevista — e foi morar nos Estados Unidos, o epicentro do império capitalista que ele critica em todo festival de cinema europeu. Milita contra a desigualdade global enquanto vive no país que mais a produz. Faz filme sobre ditaduras enquanto trabalha pra corporações que fazem negócio com ditaduras.
E o mais bonito: quando aparece em premiação, é pra fazer discurso político mastigado, do tipo que rende manchete no G1, aplauso automático da plateia de Hollywood e absolutamente zero impacto na vida de qualquer ser humano real no planeta Terra.
O anti-imperialista que trabalha pro Império
A ironia cósmica de Wagner Moura fazendo Star Wars é tão perfeita que parece roteiro. O cara que milita contra o imperialismo americano agora trabalha literalmente numa franquia sobre um Império Galáctico — de uma empresa americana — falando inglês — pra um streaming que pertence ao mesmo conglomerado que tem lobby em Washington.
E faz isso feliz. E ganha muito bem. E ninguém vê a contradição porque em Hollywood a regra é simples: pode ser bilionário, pode morar em mansão, pode trabalhar pra megacorporação — desde que no discurso você diga as palavras certas. “Representatividade.” “Importância cultural.” “Para os jovens latinos.” Pronto. Cheque liberado. Consciência limpa. Próximo red carpet.
Wagner Moura é o cara que interpreta o Capitão Nascimento — o policial truculento que a esquerda odeia — e é aplaudido pela esquerda. Que faz Pablo Escobar — um traficante assassino — pra Netflix e é tratado como herói cultural. Que milita contra o capitalismo e é um dos atores mais bem pagos do mercado capitalista global. É tanta camada de contradição que o próprio Darth Maul olha e pensa: “pelo menos eu sou honesto sobre ser vilão.”
Mas o talento é inegável
E é aqui que dói. Porque o desgraçado é BOM. É irritantemente bom. A voz grave, a presença, a capacidade de dar peso a qualquer personagem — se a Lucasfilm parou tudo pra esperar, eu entendo. Se ampliaram o papel depois de ouvir o que ele entregou, eu entendo mais ainda.
Wagner Moura é o tipo de talento que aparece uma vez por geração no Brasil. E se ele quer usar esse talento pra fazer Star Wars enquanto finge que está fazendo revolução social, o problema é dele com o espelho, não meu com o Disney+.
Eu vou assistir. Vou gostar. E vou rir toda vez que ele aparecer em Cannes ano que vem falando sobre “o papel transformador da arte contra as estruturas de poder” — pago pela maior estrutura de poder do entretenimento mundial.
Parabéns, Wagner. O Brasil entrou pra Star Wars. A militância entrou pra folha de pagamento da Disney. E o sotaque baiano agora ecoa numa galáxia muito, muito distante — e muito, muito bem remunerada.
Star Wars: Maul – Lorde das Sombras está no Disney+. O Wagner tá excelente. A hipocrisia também.